segunda-feira, 1 de julho de 2013

Cozinha caipira


     Cozinha caipira de parede de adobe e chão de terra batida! Tem picumã tingida de preto nos cantos, e nos telhados a fuligem dá testemunho de muita labuta das gerações de cozinheiras. 

     Tem cheirinho bom de comida da roça e uma paz que não acaba mais. Dá saudades das avós com seus bolinhos de chuva e dos causos ao borralho do fogão a lenha. 

     Não havia luxo nem conforto, mas o improviso fazia o pouco se tornar fartura. Todo mundo comia na banha de porco, e vez por outra tinha carne de lata, torresmo e toucinho, mas ninguém morria por conta isso. 

     Sapecava na garganta uma cachaça roceira que era para abrir o apatite. Enquanto isso, subia a fumaça da lenha em chama, nas panelas de barro borbulhava o caldo encorpado, no bule fervia o café fresquinho. 

     Em noites de tempestades, queimava-se ramo abençoado na Procissão de Palmas e a trovoada logo se aquietava nas entranhas do céu. 

     Não havia geladeira, a carne era salgada e pendurada para secar. Arroz e feijão guardava-se em tulhas de madeira ou em barricas. O arroz, inclusive, tinha que ser pilado no monjolo para retirada da casca. Depois vieram umas máquinas de beneficiar arroz na cidade, que cobrava uma parte da produção. Já o feijão era conservado na cinza para não dar caruncho. 

     Na cozinha caipira estava a alma e o coração da casa velha.


Adriano César Curado

4 comentários:

  1. Que verdadeira poesia em forma de prosa você compôs, Adriano. É tão perfeito que eu cheguei a sentir o cheiro da comida! Meus parabéns.

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  2. Perfeito o texto, prosa poética de altíssima qualidade. Parabéns.

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  3. Francisca da Silva2 de julho de 2013 18:34

    Vc é um gênio!

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  4. Olá Adriano o livro chegou, já lhe entregaram? Espero que goste depois me avisa.
    Paulo Brito

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