sexta-feira, 13 de maio de 2016

Cavalhadas de Pirenópolis: revitalização

As Cavalhadas de Pirenópolis seguiram com apresentação regular até o ano de 1958, quando amargaram oito anos sem outra encenação, época em que a Festa do Divino entrou em acentuado declínio, principalmente por conta do pouco entusiasmo do povo e dos festeiros que se seguiram. Ocorriam apenas eventos na parte religiosa e algumas apresentações de dança ou teatro.

Era preciso resgatar o esplendor e o entusiasmo de outrora. Mas isso dependia de dinheiro e influência, razão pela qual a família Pina, os Abadia, se tornou imprescindível no processo de revitalização dos festejos. Luiz Abadia de Pina (Lulu), filho de Joaquim Propício de Pina e de Rosaura d'Abadia Mendonça (dona Lalá), acabara de entregar o cargo de prefeito de Pirenópolis que exercera por cinco anos (31.1.1961 a 31.1.1966) e, com o sorteio do filho Mauro de Pina para Imperador, decidiu revitalizar a Festa do Divino. Reuniu-se então com os filhos: Mauro, o Festeiro, Geraldo, deputado federal, e José, lendário rei mouro, e traçaram ali no casarão da família, na esquina da rua Direita com o Largo da Matriz um projeto de reconstrução cultural da Terra dos Pireneus.

O patriarca do clã dos Abadia de Pina designou José para refazer as Cavalhadas, Geraldo para trazer turistas para a cidade e ele próprio, Lulu, se incumbiu de entrar em contato com as lideranças sociais da cidade e assim reavivar o interesse nos festejos de Pentecostes. Talvez a missão mais árdua tenha sido a de José, pois os mais jovens não se lembravam das Cavalhadas, por conta do intervalo de oito anos sem sua apresentação. E era preciso buscar em gavetas o itinerário das carreiras, recrutar cavaleiros, pagar suas vestimentas etc. A cidade de Palmeiras de Goiás teve grande participação nessa revitalização, já que de lá vieram cavalos, lanças e espadas emprestados, tudo por conta dos contatos de Lulu com seus parentes, os Mendonça e Jaime daquela cidade. 

Os novos cavaleiros recrutados por José (primeiro à esquerda)

Atenderam ao chamado de José alguns dos antigos cavaleiros, e ele convenceu muitos jovens a participarem. José de Pina continuou como rei mouro, enquanto Manoel Mendonça Lopes (Fiíco da Babilônia) era seu embaixador. Havia muito cavaleiro bom naquela nova apresentação, como Joãozico Lopes, Dito Zafá, Felipe, Oto Triers etc.

Mauro Imperador do Divino, tendo o irmão José à sua esquerda e o pai logo atrás

Quando Mauro de Pina foi sorteado Imperador, em 1966, tinha apenas 18 anos de idade. Na época, apesar de seu pai decidir pela volta das Cavalhadas, já não existia mais o velho Largo da Matriz, desfigurado pela praça e invadido por construções, e então a encenação migrou-se para o Campo de Futebol Dr. Ulysse Jayme, na rua do Campo. Era um local improvisado e apertado, nem de longe comparado ao arejado largo. O público era separado dos cavaleiros apenas por uma corda e os camarotes se amontoavam no lado contrário ao do sol, enquanto que do lado oposto sobravam vagas. A festa de Mauro de Pina foi um grande sucesso. O casarão de seu pai foi aberto ao povo e ali se serviram refeições e bebidas sem restrição do número de gente. Essa foi a vez que Pirenópolis recebeu significativo número de turistas.

Geraldo de Pina Imperado em 1969


Na continuidade do projeto de Lulu, a Festa do Divino chegou ao seu auge com o sorteio de Geraldo de Pina, político influente na infante Brasília, que fez maciça propaganda das Cavalhadas e convidou toda a Capital Federal para seu "Império". Nunca a pequena Pirenópolis tinha visto tanta gente junta. Entre o sábado e o domingo, ninguém conseguia mais andar nas ruas estreitas. Não havia pousadas suficientes, e boa parte dessa gente foi acampar na beira do rio. Fato é que Geraldo foi o responsável pelo novo fôlego da festa, ao promover o início dos festejos com bastante barulho (alvoradas, zabumba e apresentações da Fênix). No dia 24 de maio, sábado do Divino, foi feita uma queima de foguetes nunca vista em Pirenópolis, com uma girândola de 10 mil tiros, além de fogo de artifício e tiros de ronqueira (morteiros). Centenas de meninas vestidas de branco saíram do casarão de seu pai no rumo da Matriz, mas como o trajeto era pequeno, pois a casa fica em frente, deram a volta por trás do quarteirão, pela rua Nova.

Esse sucesso todo de público só foi possível porque, no plano de revitalização da festa, Geraldo tomou a corajosa decisão de puxar a primeiro dia das Cavalhadas para o domingo, o que propiciou oportunidade para que, daquele ano em diante, os turistas pudessem assistir pelo menos um dia de apresentação.

Na atualidade, as Cavalhadas de Pirenópolis se consolidaram no calendário cultural goiano e nacional e são um espetáculo folclórico de reconhecida grandeza. O pirenopolino passa o ano todo no aguardo dos festejos de Pentecostes e mais especificamente, das Cavalhadas. Este texto tem o intuito de não permitir que sejam esquecidos aqueles que, lá atrás na história, permitiram que hoje pudéssemos festejar mais uma festa em louvor ao Espírito Santo.


Bibliografia:
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O Divino, o Santo e a Senhora. Rio de Janeiro: Funarte, 1978.
CARVALHO, Adelmo de (Org.). Pirenópolis, coletânea 1727-2000, história, turismo e curiosidade. Goiânia: Kelps, 2000.
CURADO, Adriano César. Os Carapinas dos Pireneus. Anápolis: kelps, 2014.
CURADO, Glória Grace. Pirenópolis, uma cidade para o turismo. Goiânia: Oriente, 1980.
JAYME, Jarbas. Esboço histórico de Pirenópolis. 2 v. Goiânia: Imprensa da UFG, 1971.
JAYME, José Sisenando. Pirenópolis (humorismo e folclore), 1983.
SILVA, Mônica Martins da. A festa do Divino – romanização, patrimônio e tradições em Pirenópolis (1890-1988).

Adriano Curado

Um comentário:

  1. Erasmo Xavier Da costa13 de maio de 2016 às 16:52

    Parabéns adriano a história presente e a futura se faz da história passada.

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