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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Espelho d'água


Espelho d'água que reflete

A alma da gente,

Que une céu e terra

Na amplitude de um suspiro,

Na singeleza de um poema,

Na melodia que o vento

Assopra na janela!

Já se foi a chuva,

 Não voltou o sol,

Mas ainda assim

A majestosa Matriz

Quer se expor para mim.

Adriano Curado


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Nas folhas desses coqueiros



Nas folhas desses coqueiros

Nas folhas
desses coqueiros
parece que o
vento cochicha
inconfidências
inaudíveis.

E é lá onde
algazarreia
os periquitos,
onde o vento
passeia despreocupado,
é ali que
parece que
se passa
nossa história.

Já se vai
tanto tempo
e ainda não
nos encontramos
nas entrelinhas
desta história
comprida e
instável que
vamos escrevendo
por aí.

Nas folhas
desses coqueiros
mora a minha alma.

Adriano Curado

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Na minha aldeia


Aqui na minha aldeia, com um pouco de atenção se pode ouvir o tempo passar, ou o destino sussurrar sua sentença irrevogável. Pode-se apurar o ouvido para entender que a chuva confidencia ao telhado segredos lá das alturas e que o vento adianta o futuro ao dedilhar seus mistérios nas vidraças transparentes. E quando pela manhã os galos mais ansiosos anunciarem o despertar da madrugada, é hora de escrever sentenças poéticas para aliviar a alma da gente. Aqui na minha aldeia, já se nasce poeta.


Adriano Curado

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Poesia para a chuva



Procura-se Dias Molhados

Chovia muito...
Chovia demais da conta...
E eu, criança esbaforida,
Doida pela liberdade,
Odiava o lenga-lenga,
O pingar manso do inverninho
‘Chuva de molhar bobo’.
O tempo cuida de tudo
E prega peças na gente:
Donde haveria eu de lamentar
A falta que a chuva nos faz?
Hoje que respondo por mim
E pelos meus atos
É quase uma lamúria
A falta do céu se abrindo
Derramando-se no ressequido.
O cheiro da terra umedecida
Envolta no aroma das panelas
Ou do café fervente.
Tudo evoca sentimentos
Quando hoje dobro joelhos
Suplicando encarecido
Regresso imediato, ensandecido
Daquelas gotas frias, puras
Que alegram tanto a gente
Nesses dias tão insossos.

Marcos Fernando de Assis, poeta da vizinha Corumbá de Goiás.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

As janelas da alma


As janelas desses casarões sonolentos guardam histórias que o tempo apagou da memória. E quantos rostos curiosos já assomaram por elas à espera dos amores que não regressaram, apesar dos sonhos que a esperança não deixou apagar! As janelas dessas casas velhas são mesmo a alma translúcida da cidade. 

O tempo passou lento detrás dessas vidraças que ocultam mistérios sublimes e confidências inconfessáveis de vidas que já se foram.  Agora a nova geração é que espreita discreta a valsa cadenciada do correr dos dias, pelo caixilho dessas janelas envidraçadas que refletem as angústias da gente.

São assim as janelas que há em todos nós.

Adriano Curado

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Poema para o Bonfim


Poema para o Bonfim

Lá no alto
daquela colina,
majestoso mas solitário,
está o
velho templo,
pequeno
santuário do
Senhor do Bonfim,
protetor incansável de
Meia Ponte,
de braços abertos
num gesto
de paz e fraternidade.

Seus sinos seculares,
num soluço
de emoção,
dobraram pela
abolição da
escravatura,
o fim do
flagelo humano.

Suas portas já
se abriram para
casamentos,
batizados,
reinados,
juizados,
e ainda
continuam ali,
numa eterna
fraternal acolhida.

E passados já
tantos anos,
a igreja
permanece de pé,
soberana e elegante,
vigilante no
alto do morro,
mas agora de
roupa nova,
expondo à luz
aqueles adornos 
redesenhados com alma,
afrescos escondidos,
e deles ninguém
mais se lembrava.

Muitos e muitos
séculos ainda virão,
todos nós
já teremos partido,
mas o Bonfim,
imutável e eterno,
permanecerá lá.

Amém!

Adriano Curado

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Duas palmeiras


     Duas palmeiras espiam curiosas por sobre a copa das árvores. Será que vislumbram no horizonte do tempo o futuro de Meia Ponte? Ou será que apenas reverenciam o Rei Sol em mais um dia de plenitude e paz? Já são gigantes aquelas palmeiras, já são vistosas e deslumbrantes. Lá nas vertiginosas alturas, no meio de suas folhas, descansam pássaros multicoloridos, e periquitos algazarreiam no prenúncio da alvora. Foram testemunhas silenciosas das festanças barulhentas nas manhãs de alvorada, mas também presenciaram o repique triste dos sinos enlutados. Não sei o destino delas, se serão vitimadas por um raio desgarrado ou se algum desavisado lenhador as tombará. Mas sei que agora, cá do alto do monte, elas estão infinitamente belas.


Adriano César Curado

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Casa Branca


     Graças ao bom Deus e às minhas suadas economias, agora tenho uma casa só minha, toda de madeira pintada de branco e com uma varanda onde me jogo à tarde para compor meus versos. Na copa das árvores cantam passarinhos entusiasmados com a luz do dia e também com os farelos que espalho. Não há trânsito, nem vizinhança barulhenta, nem vendedores de objetos que não preciso para viver.

     Isso aqui é um sítio e um paraíso. Nem tão longe que precise viajar até a “civilização”, nem tão perto que os “odores” da cidade cheguem até mim.

     De manhãzinha, o sol se intromete entremeio às frestas da cortina e vem me confidenciar que o dia já se anuncia para as rosas do jardim. Logo o cheiro de café inunda a casa toda e o pensamento passeia pelos lugares da infância. Ainda dá tempo para dedilhar o violão e acrescentar mais alguns acordes na música que há meses componho. Sempre sobra tempo aqui em casa.

     E aos amigos, peço que se acheguem para uma visita, fiquem à vontade que a casa é de vocês. Não reparem na simplicidade, na pasmaceira da prosa, no sossego da gente. É que a única lei que vigora por aqui proíbe ter pressa.


Adriano César Curado

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Fusquinha de Pirenópolis (poema)



Fusquinha de Pirenópolis

Eu vi um fusquinha
sonolento nas ladeiras
de Pirenópolis.

Depois outro, depois outro
dezenas de fusquinhas
ofuscando o sol de Pirenópolis.

Quem vem antes
lá atrás
pelas ruas e ladeiras,
não acelerou o seu
fusquinha carregado
de saudades?


TELES, José Mendonça. Poemas ao Entardecer. Goiânia: Kelps, 2012, p. 35.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O telhado



     Chaminé comprida que exala o cheiro singular da comidinha de roça e se equilibra na longa fila de telhas envelhecidas! E eu me pergunto quantas almas já habitaram debaixo desse teto e quantos conflitos, alegrias, exaltações, confidências, já foram trocadas! Quanta chuva já percorreu a estreita bica de telhas! Ou seriam lágrimas que correm? Mas no dia em que ruir esse telhado centenário, os gritos, as aflições, os medos, todos eles sairão por aí, como um barco que vaga sem motor à procura de porto seguro.

Adriano César Curado

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O fogão a lenha



     Fogão velho da roça, desses de cimento queimado, encerado de vermelho, da comidinha caseira feita na banha de porco e temperada com alho socado. Ali o feijão borbulha noite inteirinha num caldeirão de ferro e no outro dia tem caldo encorpado e gostoso. Ali a carne de lata se desmancha e colore o arroz soltinho.

     No forno do fogão a lenha já está assada a broa de milho, e enquanto o café escalda no coador de pano, já tem meninada em volta da mesa, cotovelos na toalha xadrez e olhares de infância feliz.

     No rabo desse velho fogão, já se sentaram muitas gerações de prosadores, conversa que fluía macia, a lembrança acordada pela aguardente do engenho logo ali à frente.

     Em dia de festa, espalham-se doces coloridos pelo fogão, queijo fresco do leite das curraleiras paridas, requeijão trabalhado por muitos braços, bolo de fubá fresquinho. Mas em ocasião de luto, rondam por ali homens sisudos, que fumam cigarros de palha e conversam em surdina, mulheres circunspectas e vestidas com discrição.

     Passam-se as gerações e o fogão continua lá na cozinha. Vez em quando uma reforminha boba, um reboco acolá, uma nova demão de cera. Nada que comprometa a obra de arte. E em torno dele ficam as recordações das tantas gentes que estiveram ali e já não estão mais.

Adriano César Curado

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Lá vem a banda (poema)



Lá vem a banda

Lá vem a banda,
barulhenta, agitada,
e põe todo mundo na janela,
hipnotiza de tal forma
que saímos ao seu encalço,
não importa aonde vá.

Lá vem a banda
na ladeira do Rosário,
lá vem o povo histérico
que grita vivas,
e a coisa já se tornou
uma festa incontrolável.

Lá vem a banda
que traz na rabeira a história
que rebuliça algo no peito
das gentes da cidade
e brota recordações,
saudades de outras bandas.

Adriano César Curado

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A Janela



Ó janela da alma
que regala o sonho
que vê passar a ilusão
e despedir-se a quimera,
quisera eu reter o tempo
e não deixar partir,
nunca, jamais,
todos os que amo.

Adriano César Curado

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A chuva



     Como é gostoso ver a chegada da chuva! Os primeiros pingos que caem, o alvoroço dos pássaros, as gotas que escorrem lentas das folhas, o vento que desenha na vidraça imagens virtuais de água. 

A gente fica meio pensativo, meio que hipnotizado, apalermado pela chuva torrencial. E de repente chamam lá do cozinha, saiu uma fornada de peta ou uma fritura de bolinho, com acompanhamento de café moído na hora.

E quando o céu outra vez se abrir num azul infinito, heis que aparecerão borboletas e mariposas em saudação ao eterno espetáculo da vida. Mas isso será mais tarde, por agora quero curtir essa chuvinha fina de verão.

Adriano César Curado

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A cultura, a tradição e o folclore


A tocha da cultura é imortal,
queimará para todo sempre,
incendiará o povo que a sustém,
abarcará o conceito de amplidão
e estreitará a relação homem/Deus.

E a tradição que se herda,
ainda que desbotada pelo tempo,
com cheiro de mofo
e sabor de melancolia,
é a nosso razão de existir.

Dia haverá, entretanto,
nesta longa história,
em que abriremos a cartilha
e mostraremos aos filhos
a aquarela multicolorida
do folclórico teatro
desta breve existência.


Adriano César Curado

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Alvorada festiva



É madrugada ainda
mas o sono gostoso
que o povo desfruta
é abalado pela banda,
e antes que impere a razão,
já lá vamos nós também
na correria atrás da alvora.

E tome fogos na amplidão da noite!

O vozerio do povaréu
faz abrir os janelões
e assomam faces sonolentas,
meio que assustadas ainda,
quase sem acreditar
no alvoroço dessa alvorada.

E quando a banda incansável
subir a rua do Bonfim,
eis que já quase toda cidade
engrossa a fila de foliões
que segue com frio e fome
tropeça nas pedras traiçoeiras
dos paralelepípedos
e ainda sorri de encantamento.

Essa é a magia singular
que a alvorada festiva
tem o poder de despertar
entremeio à confusas vielas
da velha vila dos garimpeiros.

Adriano César Curado

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Oração do entardecer



     O entardecer por estas bandas é sempre poético e nostálgico. Tem bandos de periquitos em algazarra, tem a fogo-pagou no topo dos telhados, tem revoadas de notas musicais à procura do infinito. E é quando a enigmática noite se aproxima e os animais diurnos dão lugar a corujas e acauãs, que saudades e lembranças enchem o nosso coração e um suspiro brota do peito em forma de oração.

Adriano César Curado

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Andanças


Passa o apressado tempo
que a brisa costumeira traz
e no correr dos fatos faz
a velha igreja ainda de pé,
e sei que nem estarei aqui,
ninguém chamará por mim,
mas a igreja não terá fim,
e percorrerá as andanças infinitas
perdidas nas lembranças finitas
que ninguém se lembrará

Adriano César Curado

terça-feira, 17 de julho de 2012

Pequenos sons da infância


Em Pirenópolis
da minha infância
eu brincava
no limpo Rio das Almas
e meu espírito se purificava
na doçura daquele lugar.
Vida alegre na infância,
na grande casa 
assoalhada da vovó,
de corredores infinitos
que conduziam ao sonho.
De manhã, sabiá na laranjeira,
quitandas assadas 
no forno de barro branco.
Eu brincava de fazendeiro,
tinha vacas e bezerros
feitos de manga ou chuchu.
De noite, no fogão a lenha,
borralho crepitante,
tinha histórias de assombração.
Demorava a ferrar no sono,
e então ouvia um violão
uma flauta, uma cantora,
lá no luar da calçada.
A vida era bem vivida,
a alma de criança inocente,
sem medo de quase nada,
só das assombrações dos causos
e da rapidez da infância.
Aonde está aquele menino?
Creio que foi pescar no Almas
e se perdeu no emaranhado
dos becos da própria lembrança.

Adriano César Curado
(2012)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Poesia, música e belas imagens


Oh! Bela Pirenópolis adormecida,
Banhada pela branca luz do luar.
Suas noites tão lindas e tão queridas
Convidam seresteiros a cantar
E ao som dos plangentes violões,
Que solam canções de ninar,
São músicas divinas
São músicas de embalar
São lindas estas serenatas ao luar.
A lua aqui é mais branca e mais tristonha,
E sempre nos convida para o amor,
Aqui tudo é um sonho, aqui tudo é risonho,
Cercada de montanhas, é jardim em flor.
Quando tu vens, oh! Lua
banhar no rio de prata,
Ele diz cantando,
Em suave murmurar,
Adeus, oh! Brancas ruas de serenatas.
Adeus, oh! Terra querida,
Joia de meu Goiás,
Vou para terras distantes
Não te esquecendo jamais.

Serenata Pirenopolina - Letra e música de Ita Lopes Siqueira