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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Poema para o Bonfim


Poema para o Bonfim

Lá no alto
daquela colina,
majestoso mas solitário,
está o
velho templo,
pequeno
santuário do
Senhor do Bonfim,
protetor incansável de
Meia Ponte,
de braços abertos
num gesto
de paz e fraternidade.

Seus sinos seculares,
num soluço
de emoção,
dobraram pela
abolição da
escravatura,
o fim do
flagelo humano.

Suas portas já
se abriram para
casamentos,
batizados,
reinados,
juizados,
e ainda
continuam ali,
numa eterna
fraternal acolhida.

E passados já
tantos anos,
a igreja
permanece de pé,
soberana e elegante,
vigilante no
alto do morro,
mas agora de
roupa nova,
expondo à luz
aqueles adornos 
redesenhados com alma,
afrescos escondidos,
e deles ninguém
mais se lembrava.

Muitos e muitos
séculos ainda virão,
todos nós
já teremos partido,
mas o Bonfim,
imutável e eterno,
permanecerá lá.

Amém!

Adriano Curado

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

De volta aos pirenopolinos


A cidade de Pirenópolis reinaugura amanhã a Igreja Nosso Senhor do Bonfim Após anos de revitalização, amanhã, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Goiás (Iphan-GO) entrega à população e turistas de Pirenópolis a restauração arquitetônica e artística da Igreja Nosso Senhor do Bonfim e seus acervos. A inauguração acontece às 18h30, com celebração de novena e missa solene.

A arquiteta e coordenadora técnica da Superintendência do Iphan, Beatriz Otto, contou que a execução dos serviços teve início em 2010, incluindo o altar principal e altares colaterais, arco cruzeiro, medalhão e púlpito de cruz. “A obra foi executada em três etapas. Durante os primeiros procedimentos, técnicos do instituto descobriram diversas pinturas barrocas de extremo requinte escondidas debaixo de camadas de tinta e reboco no forro da capela mor e, ainda, nas paredes do altar principal”. A importância desta descoberta ultrapassa os valores artístico, histórico e cultural e acrescenta novos valores de rememoração à comunidade.

Na segunda etapa, foram feitas drenagem do solo “tanto da água proveniente de enxurradas quanto do lençol freático”, explicou. Esse procedimento de drenagem foi feito para evitar que as paredes da igreja recebessem tanta umidade vinda direto do solo, uma vez que as estruturas são feitas de madeira e barro.

A restauração buscou revelar toda a pintura descoberta e realizar um diagnóstico de seu estado de conservação e preservação para, em seguida, serem executados os procedimentos restaurativos. Com o resgate da pintura parietal foi possível compreender que esta possui integridade perfeita com as pinturas do nicho do altar principal.

Descobriu-se, ainda, uma rachadura acima do arco cruzeiro, iniciando assim a terceira etapa da obra que apreciou a recuperação estrutural geral do edifício, dos pés e esteios, além de iluminação interna e externa. 

Parte técnica

Mais de dez especialistas em restauração trabalharam na recuperação da igreja e o arquiteto Silvio Cavalcante integrou essa equipe como o técnico-fiscal. O arquiteto contou que há três anos, quando as obras começaram, foram retiradas cuidadosamente três camadas de reboco e pintura até chegarem na pintura original.

Minuciosamente foi feita a restauração das duas imagens barrocas que adornam a igreja - uma de Nosso Senhor do Bonfim (Cristo crucificado) e outra de Nosso Senhor dos Passos, ambas em madeira policromada em tamanho natural -, um arcaz (arca com gavetões) do século XVIII, peça de grande beleza e único mobiliário religioso remanescente do período. Estas são peças que compõem originalmente a decoração interna da igreja.

Segundo Silvio, parte da igreja e monumentos tinha uma cor dourada, mas já se encontravam em tons pretejados, que foram todos devolvidos a sua cor original. Além das minuciosas restaurações, um tratamento geral foi feito em todo o prédio, como pisos, troca do telhado e a pintura externa e interna.

Dedicação

A obra de restauração arquitetônica e artística da Igreja Nosso Senhor do Bonfim foi minuciosamente realizada por mãos dedicadas e marca uma significativa conquista no processo de preservação do patrimônio cultural. A obra fora concretizada com vistas à preservação e salvaguarda do bem, garantindo assim condições seguras de utilização por moradores e visitantes.

Segundo o arquiteto, que também é morador da cidade, a obra veio para resgatar valores, lembranças e manter a história de Pirenópolis viva na memória da atualidade. “A igreja vai estar aberta a partir de amanhã, para suas atividades normais, sendo que no período de restauração ficou fechada e só era liberada para visitações em acordo com a empresa, igreja e população”, disse Silvio.

História da Igreja

A Igreja Nosso Senhor do Bonfim está localizada em um ponto privilegiado na paisagem da cidade e forma, com as demais igrejas, um conjunto ímpar da arquitetura religiosa goiana do período colonial.

Segundo a historiografia, a Igreja Nosso Senhor do Bonfim tem 260 anos e foi construída por escravos durante o Brasil Colônia, sendo erguida entre 1750 e 1754, de modo a ter a sua fachada voltada para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (Matriz). Seu benfeitor foi o sargento-mor Antônio José, que adquiriu em Salvador (BA) uma imagem de tamanho natural de Nosso Senhor do Bonfim crucificado e que chegou à Meia Ponte trazida por um comboio de mais de 200 escravos.

A construção se encontra em sua forma original. Em seu interior possui três altares e mesma simetria de distribuição da Igreja Matriz de Pirenópolis, com nave, coro, arco cruzeiro e capela-mor. Encontra-se na parede do lado do evangelho (lado direito) um púlpito de tábuas lisas enfeitado com ornamentos de talha. No altar-mor (principal), a presença de uma porta no nicho principal, que pode ser aberta e fechada sendo possível ver pintado em suas folhas o Cristo Crucificado, com a paisagem de Jerusalém ao fundo.

A Igreja está inserida no conjunto arquitetônico, urbanístico, paisagístico e histórico da vida de Pirenópolis, tombado pelo Iphan através do Processo nº 1181-T-85, com inscrição nº 105 no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico e nº 530 no Livro Histórico, em 10 de janeiro de 1990.

Quanto custou?

Etapa 1: 2010-2011
Valor descentralizado: R$300.000,00

Valor contratado: R$299.999,97

Etapa 2: 2011-2012
Valor descentralizado: R$320.000,00

Valor contratado: R$291.214,62

Etapa 3: 2012-2013
Valor descentralizado: R$320.000,00

Valor contratado: R$311.500,00

Valor Total da Obra (Etapas 1, 2 e 3): R$902.714,59

Matéria publicada no jornal DIÁRIO DA MANHÃ do dia 5.9.2013, no Caderno DM Revista, de autoria do jornalista JOHNY CÂNDIDO

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Consideração de final de ano

( I ) Neste ano de 2011 nossa Pirenópolis enfrentou muitos desafios. Venceu alguns, perdeu outros. E agora segue sua longa história de aventura pelos séculos.


( II ) Um dos grandes problemas que ainda não foi resolvido é o som automotivo. No 12º Canto da Primavera, enquanto artistas de renome se apresentavam no Teatro de Pirenópolis, carros com sons potentes perturbavam, disparavam alarme dos veículos estacionados, interrompiam músicos. As missas são incomodadas pelo problema, os casarões sofrem com as vibrações acústicas. Mas ainda assim não apareceu quem resolvesse o problema.


( III ) O pirenopolino espera ansioso pelo andamento das obras do Salão Paroquial e Praça Central, que enquanto não termina enfeia o Centro Histórico. Desagradável também é a imagem de um fusca abandonado no Beco do Mamedes, com acúmulo de água das chuvas e perigo de dengue.


( IV ) Deixaram a antiga sede da Prefeitura Municipal estragar tanto, que o prédio teve de ser demolido e, no seu lugar, levantada uma réplica. Pelo menos o lugar terá uma finalidade social, servirá de escola de música para crianças.


( V ) Neste 2011, também os casarões históricos sofreram com reformas mal executadas e sem fiscalização competente, num jogo perigoso de faz-de-conta. A moda é demolir todo o prédio e preservar apenas a fachada, num desastroso resultado para a história goiana. Pirenópolis corre o risco de se tornar cidade-cenário.


( VI ) Na Festa do Divino de 2011, uma sentença judicial impôs a numeração dos Mascarados e quase comprometeu toda a tradição. Isso porque o ato não foi precedido de uma campanha, quiseram impor um pacote fechado e sem discussão. O Tribunal de Justiça de Goiás reverteu a situação.


( VII ) Os caminhões continuam em trânsito dentro do Centro Histórico. Os tocos de contenção são de faz-de-conta, não conseguem impedir que esses veículos pesados atrapalhem o trânsito nas vielas históricas, abalem a estrutura dos casarões e até destruam as candeias.


( VIII ) Mas independente do Poder Público, Pirenópolis persiste. Há a esperança de que em 2012 dias melhores clareiam o futuro de nossa querida cidade. Implantação de lazer saudável para a juventude, melhor infraestrutura para o turismo, votação do Plano Diretor, restauração em vez de demolição e reconstrução.

Adriano César Curado






 






 
 

 


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A casa pirenopolina VI


     O que caracteriza a autenticidade da casa pirenopolina é o uso das técnicas de construção da época do imóvel. O emprego de madeiramento tosco, lavrado sem o auxílio de serras elétricas. Os muros velhos de adobe que serpenteiam, quase que tombam para os lados, mas resistem de pé. Os janelões de tábuas irregulares, cheias de emendas e remendos. O travamento sem estética das vigas de aroeira. Esse conjunto somado é que faz a beleza dum casarão histórico.

      Mas nos dias atuais, quem compra um casarão antigo tem como primeira providência escorar a fachada e derrubar todo o resto. Na frente é uma belezura, digno dum cenário de filme antigo, mas por dentro nada mais resta de original.

      Num espetacular artigo publicado no jornal Diário da Manhã do dia 3.11.2011, na página 3, o arquiteto Garibaldi Rizzo nos fala das memórias da sua infância da Cidade de Goiás e analisa os casarões de lá com o ponto de vista técnico:

      “Denomina-se arquitetura vernacular a todo o tipo de arquitetura em que se empregam materiais e recursos do próprio ambiente em que a edificação é construída. Desse modo, ela apresenta caráter local ou regional. A cidade de Goiás é um exemplo desse tipo de arquitetura, uma vez que foi erguida aproveitando as pedras de sua região, a madeira, as taipas de mão e de pilão, e o adobe, que aproveitam os recursos do próprio terreno para erguer as edificações.
      (…)
      “Embora modesta, a arquitetura tanto pública quanto civil forma um todo harmonioso, graças ao uso coerente de materiais locais e técnicas vernaculares.
      “Trata-se de excepcional testemunho do modo pelo qual exploradores e fundadores de cidades portuguesas e brasileiras, isoladas dos principais centros urbanos, adaptaram modelos portugueses, arquitetônicos e urbanos, às difíceis condições da região tropical.
      (…)
      “A arquitetura residencial implantada na cidade é, em geral, de casas térreas, sendo raros os sobrados, e de fachada sem muita variedade somando 485 imóveis na zona de conservação. Internamente os cômodos se organizam ao longo de corredores lateral ou longitudinal central. Os longos quintais possibilitam casas de maiores dimensões, mas, via de regra, os cômodos da frente são os de convívio social, os do meio para áreas íntimas e os dos fundos destinados aos serviços.
      (…)
      "Quantas lembranças me trazem o interior destes casarios, o quarto do meio, as tramelas, as dobradiças rangedeiras, a pedra do Rio Bagagem que serve de encosto para a porta do meio...”








quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A casa pirenopolina V


     Além de retirada da viga baldrame de aroeira, outras técnicas equivocadas de “restauração” comprometem o conjunto do Patrimônio Histórico de Pirenópolis. Com a desculpa de que falta madeira no mercado, a sustentação dos casarões históricos passou a ser feita com barras de metal, que são parafusadas e depois cobertas com tábua para disfarçar.

      Um casarão centenário na rua Direita passou por esse triste disfarce em 2011. Suas pareces internas, originalmente de adobe e pau-a-pique foram derrubadas por estavam fora de prumo e no lugar levantadas outras com tijolo furado e alinhamento perfeito. O pé-direito (altura que vai do chão ao teto) foi aumentado significativamente e isso quebrou a olhos vistos a estética do imóvel. Eu pergunto: é o mesmo casarão do século XIX? Essa técnica de restauração, aprovada pelas autoridades competentes, está correta?

      É preciso sentar e discutir com técnicos especializados sobre essas intervenção nos imóveis que compõe o Centro Histórico de Pirenópolis. Se continuar assim e nesse ritmo, em pouco tempo os casarões serão todos demolidos e nos tornaremos, como já frisei diversas vezes, cidade-cenário para turista ver e fotografar.

Adriano César Curado



Casarão na rua Direita com vigas de metal

Casarão na rua Direita destoa do conjunto arquitetônico

Vigas de metal em vez de madeira

sexta-feira, 25 de março de 2011

Saudades da Matriz

 

     Que saudades eu tenho da velha igreja Matriz de Pirenópolis! Falo do templo original, aquele aonde iam meus antepassados para assistir missa, orar em despedida dalgum morto ou participar de festivos casamentos, batizados, crismas etc. Tudo acabou num incêndio que ninguém conseguiu explicar, há quase uma década, e lá se foram o sino fabuloso, a prataria pesada, o altar-mor de custoso entalhe, os altares laterais, o paraíso pintado por Tonico do Padre no teto da capela-mor, os florais no barrado das paredes etc.




     O fogo causou males irreversíveis no interior do  templo, mas as grossas paredes de taipa-de-pilão restaram intactas, assim como as torres e as sacristias. A restauração do prédio por fora ficou perfeita e estão de parabéns seus idealizadores. Seria muito triste Pirenópolis perder esse patrimônio arquitetônico de tamanha importância.


     Mas o interior não está bom. A ideia de instalar na Matriz o altar-mor da igreja do Rosário dos Pretos foi infeliz. Os artesãos da época não fabricaram a peça para um templo das dimensões da Matriz e então sobra um espaço sem sentido nas laterais. E por que não executaram o projeto dos altares laterais? Deixar buracos e terra na parede não me parece correto, pois dá um triste aspecto de obra inacabada.




     Quando a Matriz foi reformada na década de 1990, eu era o tesoureiro da Sociedade dos Amigos de Pirenópolis (Soap) e acompanhei a obra bem de perto. Pude ver que todos os altares foram desmontados, catalogados e fotografados. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tem esse material em arquivo. Portanto, há condições técnicas para refazer todos os altares destruídos no incêndio, inclusive o altar-mor.


     O desastre que parcialmente destruiu a Matriz, na minha opinião, deve ser superado. As relíquias que haviam lá dentro podem ser substituídas e a imagem da tragédia apagada da memória dos pirenopolinos. Vamos trabalhar pela conservação da estrutura que restou e foi restaurada, bem como lutar pela reconstrução de todos os altares do templo, inclusive do altar-mor.

Adriano César Curado