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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Cenas de uma insensatez

Esta imagem do século XVIII, que pertencia à igreja da Irmandade de São Benedito, dos escravos - irresponsavelmente demolida demolida em 1944 - foi retirada do MUSEU DO CARMO no dia 7, festa da Padroeira de Pirenópolis. Foi levada (em que condições?) a um marceneiro no Alto da Lapa, para ser fixada no andor. De lá foi para a Igreja Matriz, na carroceria de uma camionete, sob o sol escaldante e sofrendo toda a trepidação das pedras que calçam nossas ruas. Os responsáveis por tal feito não a de volveram ao Museu. O subempregado do Museu foi buscá-la na Matriz e, previsivelmente, a pequena rachadura que costuma aparecer no centro da imagem, no período da seca, se estendeu do peito à base da imagem. O MUSEU DO CARMO completou (sobreviveu! Com goteiras, sujeira, etc.) cinco anos, também no dia sete. Bela homenagem!

Texto de Francisco Figueiredo 


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Matéria no Diário da Manhã sobre a Matriz de Pirenópolis


O ato do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de proibir, sem nenhuma fundamentação, que se dependurasse os quadros da via-sacra do Pérsio Forzani nas paredes da Matriz, motivaram-me a escrever o artigo abaixo. Ele foi originalmente publicado no jornal Diário da Manhã de hoje (25.4.13), Caderno Opinião, p. 7.



A igreja Matriz de Pirenópolis

A igreja Matriz de Pirenópolis era um dos mais antigos templos de Goiás, relíquia bandeirante que chegou intacta até nossos dias. Em 5 de setembro de 2002, a igreja se incendiou em circunstâncias jamais esclarecidas, pois a perícia não foi conclusiva, e o fogo consumiu o telhado e toda a parte interna do monumento.

Diante da comoção geral, a Sociedade dos Amigos de Pirenópolis (SOAP), através do seu presidente José Reis, arregaçou as mangas e deu o pontapé inicial para a reconstrução do templo. Era preciso com urgência iniciar as obras consideradas básicas: restauração arquitetônica e reforço estrutural. Só restaram as paredes de pé e parte das torres. O restante virou pó.

O planejamento da reconstrução incluiu as etapas seguintes: em um primeiro momento foi trabalhada a parte física externa da Matriz, que incluiu a troca da estrutura de madeira, reforço na estrutura das paredes de taipa de pilão, montagem do telhado, fabricação de portais e janelas, bem como a reconstrução de toda a parede dos fundos, que desabou. No momento seguinte, interviu-se na parte física interna, que abrangeu o coro, os balaústres, as escadas, os forros e os pisos.

Por fim, restou a derradeira etapa, que é justamente a de reconstrução da parte artística da Matriz. Não se sabia o que fazer e a discussão sobre esse complicado projeto ficou para depois, dada à complexidade de se refazer, por exemplo, o estuque da capela-mor ou os altares. Ocorre que a conclusão dessa última etapa jamais foi descartada, uma vez que é possível executá-la, já que a Matriz tem fotografias e vídeos digitalizados de todo seu conteúdo artístico queimado; mas também não foi iniciada, e a falta de conclusão do assunto assombra os pirenopolinos desejosos do fim da obra.

Dois acontecimentos recentes me motivaram a escrever este artigo. O primeiro é a constante insatisfação da população pirenopolina com o atual estado da igreja Matriz, cujas obras pararam na reconstrução física e não se tem um posicionamento oficial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) sobre a reconstrução da parte artística. Essa tomada de decisão é importante para, se for o caso, buscar-se na Justiça Federal, que é o foro competente, uma solução definitiva para a questão. Só quem foi batizado ou se casou na matriz sabe a tristeza de ver os nichos vazios, a taipa de pilão exposta como uma ferida que não quer cicatrizar.

O segundo acontecimento foi a proibição de se dependurar os quatorze quadros da via-sacra pintados por Pérsio Forzani, um grande artista da terra, deficiente físico, que despendeu tempo e doloroso esforço para concluir a empreita a que se dispôs. Pelo que soube, os quadros não podem ser afixados porque a Matriz é um edifício tombado. E mais uma vez a população não foi oficialmente comunicada dos motivos da proibição, o que, como no caso dos elementos artísticos, impossibilita que, vencida a etapa administrativa, se busque judicialmente uma definição sobre o assunto.

Tanto o IPHAN quando a população pirenopolina certamente que têm em meta apenas a conservação, o mais original possível, de todo o conjunto arquitetônico que Pirenópolis herdou dos antepassados. E se a meta é uma só, então o consenso e o diálogo são as ferramentas mais indicadas. Decisões tomadas em gabinetes e impostas como um pacote lacrado não têm boa acolhida e nem facilitam a reaproximação necessária entre as partes. Falta comunicação, bom senso, boa vontade, que são o tempero para criar o manjar da harmonia e da pacificação.

Por tudo isso, espero que os atuais gestores públicos da área reflitam sobre o assunto. Lembrem-se de que, se temos hoje uma arquitetura de relevante valor histórico, é porque a população nativa se empenhou em conservá-la, motivo pelo qual essa mesma população precisa ser ouvida sobre o destino da cidade.

Adriano Curado

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Poema para o Bonfim


Poema para o Bonfim

Lá no alto
daquela colina,
majestoso mas solitário,
está o
velho templo,
pequeno
santuário do
Senhor do Bonfim,
protetor incansável de
Meia Ponte,
de braços abertos
num gesto
de paz e fraternidade.

Seus sinos seculares,
num soluço
de emoção,
dobraram pela
abolição da
escravatura,
o fim do
flagelo humano.

Suas portas já
se abriram para
casamentos,
batizados,
reinados,
juizados,
e ainda
continuam ali,
numa eterna
fraternal acolhida.

E passados já
tantos anos,
a igreja
permanece de pé,
soberana e elegante,
vigilante no
alto do morro,
mas agora de
roupa nova,
expondo à luz
aqueles adornos 
redesenhados com alma,
afrescos escondidos,
e deles ninguém
mais se lembrava.

Muitos e muitos
séculos ainda virão,
todos nós
já teremos partido,
mas o Bonfim,
imutável e eterno,
permanecerá lá.

Amém!

Adriano Curado

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

De volta aos pirenopolinos


A cidade de Pirenópolis reinaugura amanhã a Igreja Nosso Senhor do Bonfim Após anos de revitalização, amanhã, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Goiás (Iphan-GO) entrega à população e turistas de Pirenópolis a restauração arquitetônica e artística da Igreja Nosso Senhor do Bonfim e seus acervos. A inauguração acontece às 18h30, com celebração de novena e missa solene.

A arquiteta e coordenadora técnica da Superintendência do Iphan, Beatriz Otto, contou que a execução dos serviços teve início em 2010, incluindo o altar principal e altares colaterais, arco cruzeiro, medalhão e púlpito de cruz. “A obra foi executada em três etapas. Durante os primeiros procedimentos, técnicos do instituto descobriram diversas pinturas barrocas de extremo requinte escondidas debaixo de camadas de tinta e reboco no forro da capela mor e, ainda, nas paredes do altar principal”. A importância desta descoberta ultrapassa os valores artístico, histórico e cultural e acrescenta novos valores de rememoração à comunidade.

Na segunda etapa, foram feitas drenagem do solo “tanto da água proveniente de enxurradas quanto do lençol freático”, explicou. Esse procedimento de drenagem foi feito para evitar que as paredes da igreja recebessem tanta umidade vinda direto do solo, uma vez que as estruturas são feitas de madeira e barro.

A restauração buscou revelar toda a pintura descoberta e realizar um diagnóstico de seu estado de conservação e preservação para, em seguida, serem executados os procedimentos restaurativos. Com o resgate da pintura parietal foi possível compreender que esta possui integridade perfeita com as pinturas do nicho do altar principal.

Descobriu-se, ainda, uma rachadura acima do arco cruzeiro, iniciando assim a terceira etapa da obra que apreciou a recuperação estrutural geral do edifício, dos pés e esteios, além de iluminação interna e externa. 

Parte técnica

Mais de dez especialistas em restauração trabalharam na recuperação da igreja e o arquiteto Silvio Cavalcante integrou essa equipe como o técnico-fiscal. O arquiteto contou que há três anos, quando as obras começaram, foram retiradas cuidadosamente três camadas de reboco e pintura até chegarem na pintura original.

Minuciosamente foi feita a restauração das duas imagens barrocas que adornam a igreja - uma de Nosso Senhor do Bonfim (Cristo crucificado) e outra de Nosso Senhor dos Passos, ambas em madeira policromada em tamanho natural -, um arcaz (arca com gavetões) do século XVIII, peça de grande beleza e único mobiliário religioso remanescente do período. Estas são peças que compõem originalmente a decoração interna da igreja.

Segundo Silvio, parte da igreja e monumentos tinha uma cor dourada, mas já se encontravam em tons pretejados, que foram todos devolvidos a sua cor original. Além das minuciosas restaurações, um tratamento geral foi feito em todo o prédio, como pisos, troca do telhado e a pintura externa e interna.

Dedicação

A obra de restauração arquitetônica e artística da Igreja Nosso Senhor do Bonfim foi minuciosamente realizada por mãos dedicadas e marca uma significativa conquista no processo de preservação do patrimônio cultural. A obra fora concretizada com vistas à preservação e salvaguarda do bem, garantindo assim condições seguras de utilização por moradores e visitantes.

Segundo o arquiteto, que também é morador da cidade, a obra veio para resgatar valores, lembranças e manter a história de Pirenópolis viva na memória da atualidade. “A igreja vai estar aberta a partir de amanhã, para suas atividades normais, sendo que no período de restauração ficou fechada e só era liberada para visitações em acordo com a empresa, igreja e população”, disse Silvio.

História da Igreja

A Igreja Nosso Senhor do Bonfim está localizada em um ponto privilegiado na paisagem da cidade e forma, com as demais igrejas, um conjunto ímpar da arquitetura religiosa goiana do período colonial.

Segundo a historiografia, a Igreja Nosso Senhor do Bonfim tem 260 anos e foi construída por escravos durante o Brasil Colônia, sendo erguida entre 1750 e 1754, de modo a ter a sua fachada voltada para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (Matriz). Seu benfeitor foi o sargento-mor Antônio José, que adquiriu em Salvador (BA) uma imagem de tamanho natural de Nosso Senhor do Bonfim crucificado e que chegou à Meia Ponte trazida por um comboio de mais de 200 escravos.

A construção se encontra em sua forma original. Em seu interior possui três altares e mesma simetria de distribuição da Igreja Matriz de Pirenópolis, com nave, coro, arco cruzeiro e capela-mor. Encontra-se na parede do lado do evangelho (lado direito) um púlpito de tábuas lisas enfeitado com ornamentos de talha. No altar-mor (principal), a presença de uma porta no nicho principal, que pode ser aberta e fechada sendo possível ver pintado em suas folhas o Cristo Crucificado, com a paisagem de Jerusalém ao fundo.

A Igreja está inserida no conjunto arquitetônico, urbanístico, paisagístico e histórico da vida de Pirenópolis, tombado pelo Iphan através do Processo nº 1181-T-85, com inscrição nº 105 no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico e nº 530 no Livro Histórico, em 10 de janeiro de 1990.

Quanto custou?

Etapa 1: 2010-2011
Valor descentralizado: R$300.000,00

Valor contratado: R$299.999,97

Etapa 2: 2011-2012
Valor descentralizado: R$320.000,00

Valor contratado: R$291.214,62

Etapa 3: 2012-2013
Valor descentralizado: R$320.000,00

Valor contratado: R$311.500,00

Valor Total da Obra (Etapas 1, 2 e 3): R$902.714,59

Matéria publicada no jornal DIÁRIO DA MANHÃ do dia 5.9.2013, no Caderno DM Revista, de autoria do jornalista JOHNY CÂNDIDO

domingo, 1 de setembro de 2013

Pirenópolis redescobre tesouro

Durante a restauração da Igreja, foram encontradas pinturas decorativas,
que estavam há tempos ocultas

Ao restaurar a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, o Iphan encontrou, sob a tinta branca do interior do templo, pinturas decorativas há décadas ocultas. Desconhecidas dos historiadores, as obras têm ao menos 200 anos.

Vista geral da Igreja do Bonfim: 
restauração revelou detalhes de outros tempos

Pirenópolis ganhou mais uma atração. Após três anos de restauração, a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim será reaberta às celebrações religiosas e ao turismo em uma semana. Além de toda a estrutura reformada e pintada, a edificação de quase 260 anos, construída por escravos, teve os mais singelos e belos detalhes totalmente recuperados. Entre eles, pinturas decorativas nas paredes laterais do altar-mor e em grande parte do forro de madeira, cobertas ao longo de décadas por massa e tinta brancas.

O lugar tem quatro sinos, sendo o mais velho de 1726

Com a restauração, a Igreja do Bonfim passa a ser o mais rico templo de Goiás, do ponto de vista artístico. Desde o incêndio da Igreja Matriz de Pirenópolis, em 2002, o município distante 140km de Brasília não tinha mais templo com todas as características originais. Em Goiás Velho, a outra cidade histórica do estado, também não há igreja com tantos adornos como a do Bonfim.


Os outros sinos datam de 1803 e 1886
Essa foi a primeira reforma completa da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Em 2005, ela passou por obras estruturais, que incluíram a recuperação da fachada e a pintura em seu interior. Por falta de dinheiro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) não restaurou os elementos de arte. Ao custo de R$ 600 mil, a obra teve início em 2010. Logo no começo, raspando o reboco e a tinta branca do interior do edifício, técnicos contratados pelo Iphan tiveram a grata surpresa.

Algumas pinturas ainda estavam bem-conservadas
Os restauradores encontraram três camadas de desenhos com traços diferentes. Eram diversas pinturas barrocas de extremo requinte em cores de ocre, marrom, verde e branco, escondidas sob tinta e reboco no forro da capela-mor e nas paredes do altar principal. Todas desconhecidas por historiadores, técnicos do Iphan e até pelos mais antigos frequentadores do templo. Os restauradores decidiram manter e recuperar a última obra, a mais antiga.

Toda a estrutura dourada foi restaurada na Igreja do Bonfim, em Pirenópolis

Valor inestimável

Os técnicos não conseguiram identificar o responsável pelos trabalhos, pois o autor não deixou assinatura. Mas sabem que as obras têm ao menos 200 anos e marcam a transição do barroco para o atual estilo da igreja, o rococó. "A descoberta dessa obra ultrapassa os valores financeiro, artístico, histórico e cultural. Ela ainda acrescenta novos valores de rememoração à comunidade de Pirenópolis", destaca o arquiteto Sílvio Cavalcante, do Iphan, que supervisionou os trabalhos na Igreja do Bonfim.

Afrescos retratam a religiosidade local
Provavelmente, as pinturas foram cobertas por tinta branca a mando de algum padre. Cavalcante explica que, até meados do século passado, era comum cada pároco mandar pintar a igreja a seu modo, seguindo o estilo predominante. "Restaurar pinturas antigas era muito difícil e caro, pois os artistas moravam no Rio de Janeiro, em São Paulo ou na Europa", conta. Os restauradores mantiveram e recuperaram a pintura mais antiga por a considerarem mais harmônica com o teto e o altar.

A cruz estava em uma das paredes da igreja, em Pirenópolis

Os técnicos recuperaram também o brilho das cores das tintas e do ouro dos ornamentos do altar principal e do púlpito, elemento marcante desse templo. O púlpito era muito comum nas igrejas católicas coloniais, mas a maioria acabou destruída após perder a função nas missas. Uma espécie de minipalco, todo suspenso e trabalhado, o púlpito servia para o padre fazer a leitura do Evangelho e um sermão na língua nativa, pois, naquela época, as celebrações eram em latim.
A imagem de Cristo também sofreu restauração
Janelão e sinos

Construída entre 1750 e 1754 por escravos vindos da Bahia, sob ordens de um português, a Igreja do Bonfim tem outra particularidade, na parte superior do altar principal: um janelão, com pintura sacra, que pode esconder a imagem mais ao fundo. "Esse elemento é muito raro em qualquer região do país", destaca Sílvio Cavalcante. A imagem que fica no retábulo-mor, de Jesus crucificado, em talha de madeira e tamanho natural, também foi restaurada.

A Igreja do Bonfim conserva ainda quatro sinos centenários. O mais velho, fabricado em 1756. Dois são de 1803. Outro é de 1886, de excelente sonoridade, premiado com selo do imperador D. Pedro II. Tombado pelo Iphan em 1990, o edifício fica em uma colina por onde passa a maior parte dos turistas rumo às disputadas cachoeiras de Pirenópolis. Além de ponto de parada para pedidos de bênção ao Senhor do Bonfim, o templo é palco de algumas das manifestações folclórico-religiosas do município, hoje com 22 mil habitantes e quase 300 anos.




Fonte site Correio Braziliense
Autor do texto, das fotos e das legendas: Renato Alves
Correio Braziliense - 01/09/2013  

terça-feira, 26 de março de 2013

Um muro de pedras sobre a serra




     Faz tempo que ouço falar de um muro antigo sobre a serra do Funil, que fica próximo ao morro do Frota. A região é muito preservada, tem cerrado ainda intacto e fauna bem variada. Eu mesmo já vi ali o lobo-guará, cachorros-do-mato e raposas, para ficar só nos de maior porte. Mas na região há registro recente de onças, antas, harpia etc.

Casarão Serra do Ouro, ponto de partida

     Eu, José e Rodrigo resolvemos partir num dia de céu claro, bem cedinho, antes que o sol esquentasse para valer. Saímos do casarão Serra do Ouro, onde nos hospedamos no final de semana. Nesse início de ano é época propícia para subir morros, pois ainda não há carrapatos para infernizar a vida da gente.

Vista da região

     A escalada na serra do Funil não é fácil. O caminho chega a ficar bem inclinado e às vezes subimos de gatão para não cair. Eu caí. Já quase chegávamos de retorno quando escorreguei numa laje coberta de cascalho e machuquei a mão. Depois cheguei até a perder a unha.

O primeiro contato com o muro

     Mas todo esse sacrifício vale a pena. Primeiro porque a região por si só é linda e a vista lá de cima é um regalo para os olhos. Depois porque o tal muro de pedras é muito interessante. Mais tarde, em conversa com moradores velhos da região, descobri que não há registro oral de sua construção. Isso deixa claro que é uma obra bem antiga, certamente que da época da escravatura.

O encaixe interessante das pedras

     Pude analisá-lo bem de perto e notei que não é alto, deve ter aproximadamente meio metro de altura, mas sua extensão é formidável. Tanto que, por mais que andássemos, não conseguimos vislumbrar seu início ou fim. Acho que ele corre no cume de toda a serra.

Pirenópolis ficou bem distante

     Vou arriscar dizer que o muro não tinha a função de conter animais, à serventia das atuais cercas de arame. Ele provavelmente servia para demarcar divisas de fazendas antigas.

Não foi possível ver o fim do muro

     Outro fato interessante é que não vi pedras similares na região, o que me leva a arriscar outro palpite. Os idealizadores levaram para lá as rochas petras, tipo das de cavernas. O trabalho certamente consumiu muitos anos de árduo labor dos pobres escravos.

As pedreiras nas proximidades

     De qualquer forma, registrei minha pequena aventura em fotografias e agora disponibilizo para meus leitores. A emoção de conhecer uma edificação misteriosa e tão velha quanto essa é indescritível. Teve momento que fechei meus olhos e imaginei os cativos no desespero de encaixar logo as peças, antes que a chibatada cruel estalasse no ombro. O cheio do suor humano, o sangue respingado, os gritos de "acelera", tudo isso parece que ainda está por lá.

Eu, o muro e as polianas amarelas

     E para quem quiser ter acesso ao local do muro, informo que são propriedades particulares, o que requer autorização. Fica no caminho da fazenda Bonsucesso (a das cachoeiras). Logo após a travessia do córrego Funil, pode-se ver a grande serra à esquerda.

Adriano César Curado