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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Ser goiano

Ser goiano é carregar uma tristeza telúrica num coração aberto de sorrisos.  É ser dócil e falante, impetuoso e tímido. É dar uma galinha para não entrar na briga e um nelore para sair dela. É amar o passado, a história, as tradições, sem desprezar o moderno. É ter latifúndio e viver simplório, comer pequi, guariroba, galinhada e feijoada, e não estar nem aí para os pratos de fora.

Ser goiano é saber perder um pedaço de terras para Minas, mas não perder o direito de dizer também uai, este negócio, este trem, quando as palavras se atropelam no caminho da imaginação.

O goiano da gema vive na cidade com um carro-de-boi cantando na memória. Acredita na panela cheia, mesmo quando a refeição se resume em abobrinha e quiabo. Lê poemas de Cora Coralina e sente-se na eterna juventude.

Ser goiano é saber cantar música caipira e conversar com Beethoven, Chopin, Tchaikovsky e Carlos Gomes. É acreditar no sertão como um ser tão próximo, tão dentro da alma. É carregar um eterno monjolo no coração e ouvir um berrante tocando longe, bem perto do sentimento.
Ser goiano é possuir um roçado e sentir-se um plantador de soja, tal o amor à terra que lhe acaricia os pés. É dar tapinha nas costas do amigo, mesmo quando esse amigo já lhe passou uma rasteira.

O goiano de pé-rachado não despreza uma pamonhada e teima em dizer ei, trem bão, ao ver a felicidade passar na janela, e exclama viche, quando se assusta com a presença dela.

Ser goiano é botar os pés uma botina ringideira e dirigir tratores pelas ruas da cidade. É beber caipirinha no tira-gosto da tarde, com a cerveja na eterna saideira. É fabricar rapadura, Ter um passopreto nos olhos e um santo por devoção.

O goiano histórico sabe que o Araguaia não passa de um "corgo", tal a familiaridade com os rios. Vive em palacetes e se exila nos botecos da esquina. Chupa jabuticaba, come bolo de arroz e toma licor de jenipapo. É machista, mas deixa que a mulher tome conta da casa.

O bom goiano aceita a divisão do Estado, por entender que a alma goiana permanece eterna na saga do Tocantins.

Ser goiano é saber fundar cidades. É pisar no Universo sem tirar os pés deste chão parado. É cultivar a goianidade como herança maior. É ser justo, honesto, religioso e amante da liberdade.

Brasilia em terras goianas é gesto de doação, é patriotismo. Simboliza poder. Mas o goiano não sai por aí contando vantagem.

Ser goiano é olhar para a lua e sonhar, pensar que é queijo e continuar sonhando, pois entre o queijo e o beijo, a solução goiana é uma rima.

José Mendonça Teles

sábado, 27 de julho de 2013

Acervo de Jarbas Jayme

Jarbas Jayme

Jarbas Jayme deveria estar entre os maiores genealogistas do Brasil, pois dedicou toda a sua vida aos arquivos goianos. Nasceu na fazenda Água Limpa, município de Pirenópolis, no dia 19 de dezembro de 1895, e faleceu em Anápolis, no dia 21 de julho de 1968. Sua obra, Famílias Pirenopolinas, em seis substanciosos volumes, edição póstuma, mostra o fôlego e o amor à história desse notável meia-pontense, que pertenceu ao Instituto Genealógico Brasileiro e ao Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

E coube ao Instituto Histórico receber, recentemente, o acervo do ilustre pesquisador, depois de uma troca de correspondência com seus familiares. O acervo estava na casa da Rua Direita, em Pirenópolis, onde ele viveu. E agora, com o novo prédio do Instituto e a inauguração da Sala Jarbas Jayme, foi possível trazê-lo para Goiânia. Os documentos estão sendo organizados e catalogados pela restauradora e pesquisadora Alzira de Miranda, num trabalho meticuloso e demorado. Além de objetos pessoais, sapato, bengala, óculos, chapéu, constam do acervo inúmeras fotografias, muitas delas com molduras, obras publicadas e inéditas do autor; cartas, cadernos de anotações, máquinas de datilografia, vários livros de história, documentos de pesquisas, cadeiras e uma rústica estante.

Casa em Pirenópolis onde morou Jarbas Jayme

O interessante é a carta testamento que enviou, no dia 14 de abril de 1967, ao seu tio Joanito enumerando vários itens que deveriam ser cumpridos, após sua morte, entre eles, que não lavasse o seu cadáver, "pois reputo refinada tolice essa prática". E mais: ''Dispenso recomendações e missas. São invenções humanas, verdadeiras fontes de rendas clericais. Não lhes dou crédito. Deus, infinitamente reto e misericordioso, far-me-á justiça".



Esses documentos, depois de devidamente catalogados, serão colocados à disposição do público interessado em conhecer o universo de um dos mais notáveis pesquisadores goianos. Ao solicitar à família a doação do acervo para o Instituto Histórico motivou-me o desejo de universalizar a obra de Jarbas Jayme, abrindo um espaço para preservação de sua memória, onde todos, estudantes, professores e historiadores possam conhecer de perto a vida e a obra do ilustre pirenopolino.

Escritor José Mendonça Teles

Goiás muito deve a Jarbas Jayme. Alguns reconhecimentos foram sacramentados: a rodovia (GO 431) que liga a BR(153) a Pirenópolis, e em Goiânia, o Centro de Formação de Professores, no Setor Sudoeste; e a minipraça existente na Rua 85, no cruzamento da Rua 105, levam o nome de Jarbas Jayme.

Veio de Pirenópolis para Goiânia o acervo físico – bens materiais – do grande genealogista goiano, mas a sua alma. suas emoções, seus sentimentos, estão bem plantados em Pirenópolis, a terra que lhe serviu de berço.

José Mendonça Teles


Fonte:
TELES, José Mendonça. Título: Acervo de Jarbas Jayme. Revista Meya Ponte, Pirenópolis, v. 1, , n. 7, p. 31-32, 2000.

* * *

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Fusquinha de Pirenópolis (poema)



Fusquinha de Pirenópolis

Eu vi um fusquinha
sonolento nas ladeiras
de Pirenópolis.

Depois outro, depois outro
dezenas de fusquinhas
ofuscando o sol de Pirenópolis.

Quem vem antes
lá atrás
pelas ruas e ladeiras,
não acelerou o seu
fusquinha carregado
de saudades?


TELES, José Mendonça. Poemas ao Entardecer. Goiânia: Kelps, 2012, p. 35.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Casa em Pirenópolis





      Sempre tive vontade de ter uma casa em Pirenópolis, terra de minha mãe, onde vou quase que mensalmente, para participar da reunião da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música. A casa em que minha mãe nasceu, na Rua Direita, construída no século passado, está lá, do mesmo jeito, um casarão de troncos de aroeira, assoalhado, e aquele quintal de invejar diplomatas de Brasília que aparecem por lá, inflacionando o mercado imobiliário.


      Em seu livro, História da Menina de Pirenópolis, publicado em 1991, minha mãe fala de sua casa com ternura e muita saudade. Foi lá que morreu minha avó, em 1919, vítima da gripe espanhola. Comprar essa casa? Nem sonhar. Primeiro, a família proprietária já me descartou a possibilidade; segundo, se por acaso for a venda, um dia, não terei recursos para concorrer com os diplomatas brasilienses.


      Descendente das famílias Mendonça, Amorim, Pereira da Veiga e Nascimento, minha ligação com a cidade tem raízes fortes, históricas, daí a emoção com que recebi, em novembro de 1994, na Câmara Municipal, o título honorífico de cidadão pirenopolino. No longo poema-discurso que fiz, eu dizia: "Nos olhos de minha mãe Celuta/ vejo a saga pirenopolina / tantas lutas!! A casa da Rua Direita plantada à esquerda! de quem chega/ guarda a emoção de um tempo que ficou retido nas paredes de aroeiras/ - troncos seculares sustentando vigas e sentimentos emparedados./ Chego a Pirenópolis como quem chega/ à casa paterna,/ depois de armazenar tantos lustros de emoções e desejos de conhecer o templo/ sagrado de minha mãe".


      Assim, ir a Pirenópolis passou a ser rotina em minha vida, ora hospedava no Pouso do Só Vigário, ora na Quinta Santa Bárbara, era a oportunidade que tinha de rever parentes e amigos, de participar de saraus, de serenatas, enfim, sentindo a sensação de estar pisando nas pedras onde pisaram os pés adolescentes de minha mãe. De tanto desejar um recanto em Pirenópolis, a oportunidade surgiu, agora, quando comprei, em 24 prestações, um pedacinho de terreno - 180 metros quadrados -, onde pretendo, um dia, construir minha casa de "campo", para levar meus livros, meus discos e meu silêncio.


      E o silêncio, que era só meu e de minha família, foi quebrado, para que todo mundo soubesse, pois a notícia saiu no Giro, do dia 31 do mês passado e foi lacônica, dizendo que eu, querendo ser vizinho da família de Valéria Perillo, havia comprado um "terreno espaçoso" em Pirenópolis. Ora, nem sei onde é a propriedade da ilustre primeira-dama do Estado, descendente de tradicional família pirenopolina. A nota do Giro, maliciosa, por certo, foi passada ao Ivan Mendonça por alguém que não anda de bem com a vida, falando pelos cotovelos e botando o olho gordo em tudo. Vacinado contra quebrantos e mau-olhares, vou pedalando meu velocípede de paz até a curva extrema do caminho extremo. Sarava!



Casa dos pais de JMT




(Texto extraído do livro Crônicas de Pirenópolis, de José Mendonça Teles, Goiânia: Kelps, 2008, pp. 83 e verso)