sábado, 22 de fevereiro de 2014

Pamonhada na roça


Hoje é dia de pamonhada na roça. Tem fogão a lenha que espalha fumaça pela casa toda, tem chão de terra batida que é fresquinho, tem uma pinguinha para abrir o apetite. Ali dentro estão as mulheres em animado bate-papo, umas contam assuntos do cotidiano, outras puxam uma cantoria das antigas.


Aqui fora, numa roda que começa a afinar a viola, estão os homens com seus palheiros de espantar mosquito e suas botinas rangedeiras. Já sangraram o capado no chiqueiro e a peonagem agora traz as bandas para destrinchar. A cachorrada está alvoroçada no terreiro, os gatos miam fino em riba do telhado, sabem que sempre tem umas sobrinhas, uns refugos, nacos menos nobres que para esses bichos é um banquete.



Batem palmas lá na porteira. Acode ali que o compadre chegou da vizinhança e trouxe a família. Se achega mais gente debaixo desta mangueira copuda e todo mundo, sem cisma nem cestro, quer provar da cumbuca de torresmo que acabaram de fritar, desses que queimam a ponta do dedo e a gente tem que assoprar miúdo.


Enquanto corre mais uma rodada da aguardente aqui fora, lá dentro o movimento é intenso. Dobrar a palha, derramar o milho ralado dentro, amarrar com esmero e depois mergulhar na fervura. Tem uns três ou quatro homens lá dentro, no afã de dar um adjutório, e é bom que se conte isso para mode não pensar que só as mulheres trabalham hoje. Isso não quer dizer que tem bastante desocupado lá debaixo daquela mangueira, e parece que já se ouve a fala arrastada de bêbado.

Estendidas sobre a mesona de pedra, lá estão as duas bandas do capado. Facas afiadíssimas em mãos ágeis desossam o bicho e separam por partes em gamelas. Os meninos lavam as tripas na bica do monjolo, viram do avesso com uma varinha, desviram para conferir se estão mesmo limpas, senão a linguiça não sai a contento.

E já começam as modas de viola e nova rodada da branquinha debaixo da mangueira. Alguém reclama que os músicos não ajudaram nada, mas uma voz sábia disse que há males que vêm para bem e que bêbado no manuseio de facas afiadas não é bom.



As pamonhas estão pronta, já frita a banha do caldeirão e a carne agora é salgada para guardar. Puxam um parabéns meio desafinado. Sim, é aniversário do dono da casa. Infelizmente não teremos um instrumento no acompanhamento, pois todos dormem caídos ali à sombra da mangueira. Mas deixa isso para lá, o importante é que a alegria e a confraternização reinaram neste dia de pamonhada na roça.

Texto de Adriano Curado
Fotos de Eli Luiz da Costa

Um comentário:

  1. Ana Maria Vasconcelos.22 de fevereiro de 2014 12:49

    Rapaz, você escreve muito bem. Eu cheguei a sentir o cheiro da linguiça fritando.

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