terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Na ladeira do Rosário



Hoje pela manhã, ao ver um vistoso e bem tratado cavalo que puxava uma carroça, lembrei-me de um triste acontecimento da minha infância. O fato ocorreu na ladeira da rua do Rosário, quase em frente ao prédio onde atualmente está a Pousada das Cavalhadas. Naquele tempo a rua era de mão dupla, podia-se tanto subir quanto descer.

Era por volta de meio-dia, sol a pino, arregalado no céu azulado de junho, quando vi uma cena que muito me chocou. Subia a ladeira uma carroça atulhada de areia molhada, quando o velho e magro cavalo não aguentou o peso. Ofegante, trêmulo, assustado, o animal tentava desesperado mover a carroça, mas suas rodas pareciam chumbadas nas pedras do pé-de-moleque.

Enquanto isso o chicote estalava, gritos, urros, ameaças. Em vão. E o pior é que a carroça começava a descer de ré, embora seu proprietário tivesse as duas mãos em uma das rodas. Também assustado, ele saltou para os lados, catou uma pedra e travou a roda. Neste exato instante, o cavalo desabou. Tremia bastante, como se sentisse frio, estava em choque.

Ao ver aquilo o carroceiro se desesperou, afinal, aquele era seu patrimônio. Então foi até a loja do Ézio buscar água. Voltou com um balde cheio que derramou aos poucos na cabeça do bicho. Desafivelou as correias, a carroça empinou e derramou toda a areia ladeira abaixo. Já livre das amarras, o cavalo começou a respirar melhor, embora ainda não reagisse a estímulo algum. Trabalhava ininterruptamente desde as seis da manhã, estava com fome e com sede o coitado. Era um animal já velho, seus músculos cansados não podiam com aquele esforço todo.

Eu fiquei ali parado, estarrecido, grudado ao muro da casa de João Basílio. Observava o povo que começou a juntar em volta da cena, palpiteiros de todos os calibres e tons de voz. Um policial apareceu e se ofereceu para sacrificar o bicho com um tiro de trinta e oito. O carroceiro dizia que não, que o cavalo estava acostumado a desmaiar assim, que logo ele se levantaria etc. e tal. Mentia, obviamente, para tentar amenizar seu prejuízo.

Não foi preciso o policial matar o cavalo, ele voltou do torpor e levantou a cabeça. O carroceiro desabou como se o chão houvesse sumido debaixo dos seus pés. Olhava para seu companheiro de labuta com os olhos umedecidos, como se só naquele instante se desse conta do laço afetivo que os unia. Comprara o animal ainda potro, labutavam juntos há muitos anos, mas só há pouco optara por vender areia do rio das Almas. Para sua infelicidade, a ladeira do Rosário era íngreme demais.

Trouxeram um bornal com milho debulhado, água fresca num balde, e o homem só faltou tapar o sol com um guarda-chuvas. Não fiquei lá para ver o desenrolar da história, mas soube que, horas mais tarde, o cavalo se recuperou e foi embora sem puxar a carroça ou servir de montaria.

Tantos anos já se passaram e eu ainda me recordo daquela cena na ladeira do Rosário.

Adriano Curado

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