quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O boi da guia (Conto)










Eram umas nove horas quando surgiu Izarias com suas juntas de oito bois. Caboclo de pele tostada em muitos verões, corpo forte, semblante duro, era ele o carreiro que comandava o carro. Mais na frente seguia um menino crioulo chamado César, que exercia a função de guia e induzia os bois a acompanharem sua vara com ferrão na ponta.


Naquele instante o carreiro gritava pelo nome dos animais e lhes cravava ferroadas na carne. O conjunto era formado por quatro juntas ─ de guia, do pé de guia, de coice e de força. Os oito castrados esticavam o pescoço na contração dos fartos músculos dos quartos e berravam em protesto pelo peso excessivo da carga. Mesmo peso que fazia a roda do carro rodopiar nos seus meião e cambotas no choramingo do eixo de ipê-roxo.


─ Pau-de-fumo! ─ o carreiro gritava eufórico e ferroava o animal. Pau-de-fumo era o famoso boi da guia, uma brabeza catada a unha por muitos peões em terras devolutas. Não passava de um bicho de aparência diabólica, mostrador de mania e cisma, mas excelente na junta de guia. 



Izarias mordia o grosso cigarro de palha, soltava fumaça pelas ventas; usava ele um facão entremeio às pernas, um par de alpercatas de couro cru e um chapelão de aba larga. O carro de bois cantava com o peso. Sua esteira de bambu, empanturrada de milho, forçava os fueiros e estalava a cheda de jacarandá. E na parede caiada dos casarões tremia a sombra da boiada carreira.



─ Ei, Ramalhete, pode deixar vassuncê! ─ bateu com a vara em um boi que retinha a marcha e depois completou: ─ Bicho treteiro! ─ O chiado lamuriante do carro de bois despertava as mangueiras dos quintais, fazia algumas donzelas espiarem pelas janelas e morria rouco pelas chapadas.


─ Vai, Piquete! ─ gritou com um dos bois, mas o animal não reagiu e obrigou o carreiro a feri-lo com o ferrão da vara. Enquanto isso, as cantadeiras de sangra-d’água, untadas com óleo de mamona, aliviavam o cocão, mancal em que girava o eixo, do peso do milho empilhado em riba da mesa de angico. 
 
─ Caminha, Pau-de-fumo! ─ o carreiro continuava sua luta com os bois: ─ Diacho de bicho brabo! ─ 



Dependurada no recavém do carro de bois, a guampa derramava pelo caminho o tutano que lubrificaria o eixo. Os animais de Izarias seguiram rua afora, observados por certos moradores e pela acuado meninada com medo daquelas imensas feras. Diferente do garoto César, que era ligeiro e sempre atentava para os movimentos em suas costas. 



A travessia por Pirenópolis ia bem, até que, quase na esquina da rua Nova, ali em frente da loja do Mestre Propício, ocorreu um infortúnio. Quando Izarias percebeu, duas velhinhas já atravessavam na frente dos bois, e ele, desesperado, tentava cercar a junta de guia, enquanto gritava para as anciãs:
─ Não passem no rumo desse boi, ele bate até com canga!
As duas então estremeceram de ódio e gritaram em coro:
─ Que dia demos confiança a negro?! 
  

Nisso cataram no chão duas tabocas e continuaram no rumo de antes, rezariam na Matriz. César, o moleque da guia, cutucado pelo sopro do instinto, safou-se de lado. Já Izarias, no prenúncio do pior, pulou diante do boi da guia e o ameaçou com a vara de guatambu. Pau-de-fumo soltou uma bufada feia, balançou os chifres pontudos para todos os lados, os olhos esbugalhados na fúria do sangue, e investiu contra as velhas de taboca na mão. Estalaram-se então cambão e cabeçalho, arrebentou-se a barbela e o canzil ficou partido. Passou o bicho como uma sombra negra, quebrou a vara de Izarias e espremeu uma das anciãs no cajazeiro do largo. E a outra desceu em desabalada correria no rumo da igreja, esquecida dos seus incontáveis janeiros.


Não demorou muito e formou-se um fuzuê daqueles. O carreiro ora explicava a história para o povo que se juntava, ora buscava testemunha, ora olhava para o boi de chifres sangrentos. E tudo que queria era cortar caminho pela cidade! A velhinha jazia estendida numa poça de sangue, muita alva, o cabelo ralo. Sabia-se dela apenas que no passado possuiu muito dinheiro, mas que agora esmolava com a irmã nas portas da casas.



Depois de muita discussão, o já furioso Izarias foi até debaixo do carro, catou a guampa caída, substituiu canzil e barbela e ajoujou novamente Pau-de-fumo ao seu par de canga. Depois mandou César tomar posição e disse aos presentes: ─ Se ela falou que não dava confiança a negro, então é capaz que sabia o que falava.
Nisso levantou a vara partida e gritou a plenos pulmões:
─ Adiante, bois!

Boiada Carreira da Fazenda Chumbado em 1946



(Conto de autoria de Adriano César Curado, publicado no livro Paixão de Caboclo, Goiânia: Kelps, 1999)

5 comentários:

  1. Que lindo conto esse da sua lavra, escritor. Seu regionalismo não é tardio, mas renovador, pois você inova na forma de pintar o sertão e aplica corer fortes mas com harmonia.

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  2. Berlmiro M. Amaraí4 de fevereiro de 2011 11:55

    O seu regionalismo me lembra bastante a pena de Bernardo Élis, seu parente, creio eu, e me faz crer que a literatura brasileira ainda tem salvação. Parabéns pelo belíssimo conto.

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  3. O conto é das melhores formas de expressar a literatura e vc o faz muito bem. Meus parabéns pela obra.

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  4. Maria Célia Gomes26 de março de 2012 22:53

    Que belo conto, Adriano! Parabéns pelo seu talento, e por querer preservar através do seu site, a memoria dessa linda pirenopólis, que aprendi a amar, pela sua linda história, e pelo povo hospitaleiro que sempre nos recebe com tanta simpatia.

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  5. Em www.carrosdeboi.com.br você tem notícias sobre as principais festas de carros de boi do Brasil. Convido você para conhecer!

    Rogério Corrêa
    www.carrosdeboi.com.br

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