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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Imagem e o Imaginário

Imagem do acervo da Família Pina



Esta fotografia registra, no Largo da Matriz, uma embaixada entre o rei mouro José de Pina (Zé de Lulu) e o embaixador cristão Benedito Jayme Siqueira (Dita Zafá), nas Cavalhadas de 1958.

Esta foi a última encenação no largo, já que, oito anos mais tarde, as Cavalhadas retornariam, na Festa do Divino de Mauro de Pina, mas agora no campo de futebol Dr. Ulisses Jayme, onde está até hoje.

Se analisarmos bem a imagem, veremos que, naqueles bons tempos de gente educada, não havia sequer uma corda para conter o povo, mas ainda assim ninguém invadia o campo.

Outra curiosidade é o casarão no canto direito da foto, onde atualmente está a casa de dona Ita e seu Alaor de Siqueira. Naquela época diziam que a casa, já uma tapera, era mal assombrada e à noite ouviam-se gritos, arrastar de correntes e pedidos de socorro vindos lá de dentro.



by Adriano César Curado, escritor, poeta e historiador. Baixe gratuitamente seu livro DEUS MORA NO SEU INTERIOR ou entre em contado através de adrianocurado@hotmail.com




quinta-feira, 18 de junho de 2009

O imperador e sua corte 3

Cavaleiros entregam as lanças do Imperador

     Ocupar o cargo de Imperador do Divino não é tarefa fácil. Exige muita paciência, disposição de tempo e dinheiro para gastar. É questão de fé religiosa, desejo de manter as tradições e, de certa forma, vocação para organizar festejos. Isso porque hoje em dia a educação do povo deixa muito a desejar. Eu vi pessoas que tomaram bandejas de salgados ou doces das mãos dos voluntários que serviam aqueles que se dirigiram à casa do imperador. Vi igualmente gente que carregava comida para casa, numa total falta de consideração e espírito comunitário.

     Marcus de Siqueira e sua irmã Natália souberam exercitar como poucos a arte de relevar e apaziguar. Embora testemunhassem acontecimentos absurdos em sua casa, nenhum dos dois se indispôs com os sem educação.



Entrega de lanças ao Imperador pelos cavaleiros das Cavalhadas

     Cito como exemplo um jantar para o cavaleiros das Cavalhadas. Enquanto transcorria o agradecimento da mesa e as catiras tradicionais, já tinha gente cara de pau que começava a se servir da comida. Fato impensável na Pirenópolis de algumas décadas atrás, quando todos sabiam se portar, já que a educação começava em casa e terminava na escola.



     E por falar em cavaleiros, uma das partes mais bonita da festa é protagonizada por eles. Falo da entrega das lanças ao imperador, marco do fim dos ensaios e véspera do início das Cavalhadas. Esse acontecimento se deu na quinta-feira (28.05.2009), quando mouros e cristão se enfileiraram em frente ao casarão dos Siqueira, na rua Direita, e um a um se dirigiram ao festeiro, beijaram a vara com que ensaiaram por duas semanas as coreografias e a entregaram simbolicamente.

Adriano César Curado

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Festa do Divino 8

Largo da Matriz
tomado pela salão paroquial
Foto: Arquivo da Biblioteca Pyraí
 
     Depois de 1958, seguiram-se oito anos sem outra encenação das Cavalhadas, época em que a Festa do Divino de Pirenópolis entrou em acentuado declínio, principalmente por conta do pouco entusiasmo do povo e dos festeiros que se seguiram. Ocorriam apenas a parte religiosa e algumas apresentações de dança ou teatro.

     Era preciso resgatar o explendor e o entusiasmo de outrora. Mas isso dependia de dinheiro e influência, razão pela qual a família Pina se tornou imprescindível no processo de revitalização dos festejos. 

     A mudança então teve inicio quando Mauro de Pina, então com apenas dezoito anos de idade, foi sorteado imperador, já no ano de 1966, ocasião em que não existia mais o velho largo (desfigurado pela praça e invadido por construções), e a encenação das Cavalhadas migrou-se para um espaço na rua do Campo. 

     Era um local improvisado e apertado, nem de longe comparado com o arejado largo da Matriz. O público era separado dos cavaleiros apenas por uma corda e os camarotes se amontoavam no lado contrário ao do sol, enquanto que do lado oposto sobravam vagas.

     A festa de Mauro de Pina foi um grande sucesso. O casarão de seu pai, Lulu de Pina, que fica em frente à igreja Matriz, foi aberto ao povo e ali se serviam refeições e bebidas sem restrição do número de gente. 

     Muitos jovens da época não se lembravam de como eram encenadas as Cavalhadas, dado o grande espaço sem sua apresentação. Tiveram de buscar antigos cavaleiros para que ressurgisse esse grande teatro a céu aberto, e José de Pina continuou como rei mouro, enquanto Fiico da Babilônia era seu embaixador. Havia muito cavaleiro bom naquela nova apresentação, como Joãozico Lopes, Dito Zafá, Felipe etc.

     A Festa do Divino de Pirenópolis, no entanto, chegou ao seu auge com o sorteio de Geraldo de Pina, deputado federal e extremamente influente na infante Brasília, tanto que chegou a levar Juscelino Kubitschek até a cidade. 

     Geraldo foi o responsável pelo novo fôlego da festa, ao promover o início dos festejos com bastante barulho (alvoradas, zabumba e apresentações da Fênix). No dia 24 de maior, sábado do Divino, foi feita uma queima de foguetes nunca vista em Pirenópolis, com uma girândola de 10 mil tiros, além de fogo de artifício e tiros de ronqueira (morteiros). Centenas de meninas vestidas de branco saíram do casarão de seu pai, Lulu de Pina, nos rumos da Matriz.

     Devido à influência obtida nas lides parlamentares, tornou Pirenópolis conhecida por Brasília, e nessa ocasião a pequena cidade se viu invadida, literalmente, por uma assustadora massa de turistas. 

     Isso só foi possível porque, no plano de revitalização da festa, Geraldo tomou a corajosa decisão de puxar a primeiro dia das Cavalhadas para o domingo, o que propiciou oportunidade para que, daquele ano em diante, os turistas pudessem assistir pelo menos um dia de apresentação.

     No ano seguinte, Duílio Pompeu de Pina foi sorteado e continuou a promover a festa no mesmo estilo da nossa safra de imperadores. As Cavalhadas se consolidavam e não mais deixariam de ser apresentadas nos anos seguintes.

Bibliografia:
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O Divino, o santo e a senhora. Rio de Janeiro: Funarte, 1978.
CARVALHO, Adelmo. Pirenópolis, coletânea 1727-2000, história, turismo e curiosidade. Goiânia: Kelps, 2000.
CURADO, Glória Grace. Pirenópolis, uma cidade para o turismo. Goiânia: Oriente, 1980.
FERREIRA COSTA, Lena Castelo Branco. Arraial e coronel. São Paulo: Cultrix, 1970.
JAYME, Jarbas. Esboço histórico de Pirenópolis. 2 v. Goiânia: Imprensa da UFG, 1971.
JAYME, José Sisenando. Pirenópolis (humorismo e folclore), 1983.
SILVA, Mônica Martins da. A festa do Divino – romanização, patrimônio e tradições em Pirenópolis (1890-1988).

Adriano César Curado