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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Três personagens da Festa do Divino


Aproximando-se a Festa do Divino de Pirenópolis, é o momento de relembrarmos pessoas que contribuíram para o engrandecimento desse histórico evento. Na fotografia, da esquerda para a direita temos: Manoel Mendonça Lopes (17.04.1923 - 25.12.1981), Elesbão e José Abadia de Pina (7.4.1923 – 11.9.1983).

Manoel, na verdade, era conhecido como Fiíco da Babilônia, um grande músico, tocava viola, compôs muitas músicas. Ele e os irmãos Duque e Nico eram os integrantes do conjunto musical “Babilônia”. Participou das Cavalhadas como embaixador mouro de 1966 a 1972.

José passou a ser chamado de Zé Lulu, um rei mouro de muitas histórias. Participou de todas as Cavalhadas que foram apresentadas entre 1940 a 1972. Tornou-se rei em 1953, quando Agostinho de Pina foi sorteado Imperador do Divino.

Elesbão se tornou Lisbão no linguajar pirenopolino. Tinha uma leve deficiência mental e por isso sofreu muito bullying da meninada da época. Gritavam que ele era “boca de goiaba” e em resposta dava pedradas. Foi importante nos festejos porque ia ao campo durante as Cavalhadas e servia água para os cavaleiros e lanceiros. Usava uma camisa engraçada, azul de um lado e vermelha de outro, em homenagem aos mouros e cristãos.

A esses três personagens, minhas homenagens.

Adriano Curado


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Zé Lulu



SÉRIE BIOGRAFIAS

JOSÉ ABADIA DE PINA
(Zé Lulu)


     José Abadia de Pina (n. Pirenópolis 07.05.1923 – f. Anápolis, 22.09.1983) foi vereador, fazendeiro, incentivador da cultura e da tradição, um dos responsáveis pela sobrevivência das Cavalhadas de Pirenópolis, evento do qual participou entre os anos de 1940 e 1972.

Foto: Lulu de Pina (Arquivo da Família Pina)

__ Família __

     Zé Lulu, como era conhecido, filho de Luiz Abadia de Pina e Inácia Lopes de Pina, era o mais velho de dez irmãos: Joaquim Neto (Seo Quinho), Hugo, Geraldo, Terezinha, Rosaura (Laíca), Luiz, Antônio, João e Mauro.

Foto: casarão da Família Pina

     Nasceu numa família de artistas, neto do grande maestro Joaquim Propício de Pina (Mestre Propício), fundador da Banda Fênix, sobrinho do teatrólogo Sebastião Pompêo de Pina. Desde criança José já se apresentava em peças teatrais infantis, incentivado pelo avô maestro. Mas foi ainda adolescente, aos 12 anos de idade, que pediu ao pai autorização para se apresentar nas Cavalhadas, na função de soldado mouro ordinário.

Foto: casarão onde morou Zé Lulu

     Casou-se em 1945 com Maria Jaime de Siqueira (n. Pirenópolis 03/06/1923 - f. Pirenópolis, 04/11/2015), filha do casal Josafá de Siqueira e Adelaide Jayme Siqueira, com quem teve duas filhas, Adelaide Marta e Beatriz, ambas casadas e com sucessão. Após o casamento, comprou, dos herdeiros do avô Mestre Propício, o casarão no Largo da Matriz onde nascera, até hoje pertencente à sua família.

Foto: Fazenda Chumbado na década de 1950 (Arquivo Família Pina)

     Na década de 1940, Lulu de Pina recebera de herança do pai, Mestre Propício, uma fazenda de aproximadamente mil alqueires, ali construiu casarões coloniais semelhantes aos pirenopolinos e assim teve início a famosa Fazenda Chumbado. Ali José e sua esposa Maria moraram por mais de 30 anos.

Foto: Zé Lulu em 1968 (Arquivo da Família Pina)

__Cultura__

     Quem sabe conduzir bem uma montaria, tem o que se chama boa mão-de-rédea. No caso do biografado, sua facilidade em se comunicar com os animais e saber conduzi-los pelo movimentado Campo das Cavalhadas arrancava aplausos da plateia extasiada. Ou seja, tinha uma impecável mão-de-rédea.

Foto: Zé Lulu (à esquerda) em apresentação no Largo da Matriz (1958)
Arquivo da Família Pina

     José de Pina foi o Rei dos Mouros que ficou na história das Cavalhadas de Pirenópolis. Até hoje ele se perpetua na imaginação dos pirenopolinos, como uma lenda que sobreviverá ao tempo. Por viver em fazenda e desde pequeno não sair do lombo de mulas e cavalos, ganhou grande intimidade no manuseio desses animais. Quando resolveu participar das Cavalhadas, seu porte elegante sobre as montarias fez com que os pirenopolinos associassem sua imagem à do ator Charlton Heston, que fazia sucesso no cinema norte-americano à época com personagens como Judah Ben-Hur e El Cid.

Foto: batismo em 1966 (Arquivo da Família Pina)

     Zé Lulu participou pela primeira vez das Cavalhadas de Pirenópolis em 1940, quando era Imperador de Divino Jácome de Siqueira, na função de soldado ordinário. Em 1953, quando Agostinho de Pina “caiu” Imperador do Divino, Lolô era Rei dos Mouros, e devido a algumas desavenças que não convém contar aqui, abandonou o posto. Então Zé Lulu virou Rei dos Mouros e Décio de Carvalho seu Embaixador. Correram juntos em 1953, 1957 e 1958, quando findaram-se as apresentações no Largo da Matriz, que foi destruído posteriormente.

Foto: Cavaleiros voltam do ensaio em 1966 (Arquivo da Família Pina)
Os quatro primeiros são: Lalau, Zé Lulu, Dito Zafá e Fiíco
Na janela, Dona Semírames, mãe de Emílio de Carvalho
     Quando as Cavalhadas voltaram a ser apresentadas, como não havia mais o velho largo, as encenações tiveram de ocorrer no campo de futebol Dr. Ulisses Jayme, localizado na Rua do Campo. Era o ano de 1966, quando Mauro de Pina foi sorteado Imperador do Divino, e Fiíco da Babilônia passou a ser Embaixador dos Mouros, embora Zé Lulu permanecesse Rei.

Foto: Zé Lulu empina seu cavalo na vertical em 1966 (Arquivo da Família Pina)

     Apresentou-se pela última vez nas Cavalhadas em 1972, festa de Cloves Afonso de Oliveira. No ano seguinte, festa de José Inácio Gomes da Silva (Inacinho), por causa da doença de seu pai, José não quis mais correr.


Zé Lulu e Fiíco da Babilônia em 1968 (Arquivo da Família Pina)

__Cavalhadas perto do fim__

     Em 1934, quando caiu Imperador do Divino, Lulu de Pina salvou as Cavalhadas do fim, ao juntar velhos cavaleiros e alguns moços e fazer com que o evento voltasse a acontecer. O mesmo ocorreu quando, em 1958, houve a última apresentação das Cavalhadas no Largo da Matriz, que em seguida foi ocupado pela praça, salão paroquial e prédio do correio, e esse folclore foi esquecido.

Foto: Imperador Mauro de Pina (1966), tendo José em primeiro plano
e Lulu logo atrás. Foto: Arquivo da Família Pina

     Em 1966, Mauro de Pina foi sorteado Imperador e seu pai, Lulu de Pina, novamente articulou para salvar essa manifestação cultural pirenopolina. Para isso, Lulu deixou a cargo do filho José a difícil tarefa de recriar o evento. Foi preciso trazer de volta os veteranos e garimpar rapazes interessados em participar das apresentações, até completar os 24 cavaleiros. Para ajudar Pirenópolis, vieram bons cavalos de Goianésia e indumentária dos cavaleiros de Palmeiras de Goiás.

     Deu certo. Venceslau Antônio de Oliveira (Lalau) foi Rei Cristão e Benedito Jayme (Dito de Zafá), Imperador. Zé Lulu foi Rei Mouro e Manoel Mendonça Lopes (Fiíco da Babilônia), Embaixador.

Foto: Zé Lulu e Fiíco da Babilônia em 1968 (Arquivo da Família Pina)

     As Cavalhadas de Pirenópolis voltaram em 1966 e, salvo uma falha em 1970 (porque morreu o prefeito e irmão do Imperador), nunca mais deixaram de ser apresentadas na cidade.


Zé Lulu em 1968 (Arquivo da Família Pina)

__Considerações Finais__

     Das apresentações de Zé Lulu nas Cavalhadas ficaram suas performances perfeitas sobre os cavalos, principalmente no instante das embaixadas, quando empinava as montarias numa ângulo tão vertical, que parecia que ambos cairiam. Também eram espetaculares as lanças que atirava sobre o arco das argolinhas, passava o cavalo em disparado galope por baixo e a alcançava lá na frente, antes que pudesse tocar no chão.

     Foi Imperador do Divino no ano de 1947, quando fez uma fenomenal queima de fogos no Largo da Matriz e ofereceu um churrasco nas Lages para toda a população pirenopolina.

     Zé Lulu morreu em 1983, aos 60 anos de idade, vitimado por um câncer. Deixou largo círculo de amigos e nunca praticou um ato sequer que pudesse pingar uma nódoa em sua biografia. Sua viúva é viva, quase nonagenária, e ainda mora no mesmo casarão histórico do Largo da Matriz. Pelo esforço em manter viva a tradição pirenopolina, pelo esforço que empreendeu para não deixar perecerem as Cavalhadas, Zé Lulu merece, com louvor, figurar entre os biografados deste site.

É Patrono da Cadeira XXXVIII da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música (APLAM).
Foto: Festa do Divino de Zé Lulu em 1947 (Arquivo da Família Pina)
Foi servido um churrasco a todos os pirenopolinos nas Lages 

Fontes de pesquisa:

A) Bibliografia:



ABREU, Marta C. Mello. Moraes Filho: Festas, Tradições Populares e Identidade Nacional. In: História Contada.Org: CHALBOUB, Sidney & PEREIRA, Leonardo Affonso de M. Rio de Janeiro Nova Fronteira 1998. P. 171-193.
ALMEIDA, Renato. Cavalhadas Dramáticas In; Folclórica nº 3, ano 2 1973, Goiânia,
Instituto goiano do folclore, p.37-54.
ALVES, Luiz Antônio. Pirenópolis: Festa do Divino. Cultura – Publicação do Ministério da Educação e Cultura. Brasília, ano I, n. 2, 1971.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Cavalhadas de Pirenópolis. Goiânia: Oriente. 1974.
CARVALHO, Adelmo. Pirenópolis, história, turismo e curiosidade. Goiânia: Kelps, 2000.
CURADO, Glória Grace. Pirenópolis; Uma Cidade para o Turismo. Goiânia.: Oriente. 1980.
CURADO, Adriano César. Os Carapinas dos Pireneus. Goiânia: Kelps. 2014.
CURADO, Adriano César. Biografia do Mestre Propício. 2003. (Mimeo).
JAYME, Jarbas. Família Pirenopolinas: ensaios genealógicos. v. 1. Goiânia: UFG, 1973.
LACERDA, Regina. Traços da Cultura Portuguesa em Goiás. In: Rev Brasileira do Folclore. Rio de Janeiro, MEC, 1968.
PEREIRA, Niomar; VEIGA JARDIM, Mara Públio de Sousa. Uma festa religiosa brasileira: festa do Divino em Goiás e Pirenópolis. São Paulo: Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1978.
PINA FILHO, Brás Wilson Pompeu de. Folclore Goiano: Festa do Divino em Pirenópolis. Aspectos da Cultura Goiana. Goiânia, v. 2, 1971.
SILVA, Mônica Martins da. A Festa do Divino. Romanização, Patrimônio & Tradição em Pirenópolis (1890 – 1988). Goiânia: Agepel, 2001.
SIQUEIRA, Vera Lopes de. Tradições Pirenes. 2ª edição. Goiânia. Kelps. 2006.
SIQUEIRA, Vera Lopes de. Datas Pirenopolinas-1727-1997. (Mimeo).

B) Pessoas entrevistadas:
  • Alaor de Siqueira;
  • Benedita Lopes de Siqueira (dona Ita);
  • Boanerges Pireneus de Oliveira.
  • Euler de Amorim;
  • João José de Oliveira;
  • João Lopes da Silva (Joãozico Lopes);
  • Lélia de Pina Amor;
  • Maria d'Abadia Pina Godói;
  • Maria Jayme de Siqueira Pina;
  • Manoel Ignácio de Sá;
  • Nadiédia de Oliveira;
  • Sebastião Dias Goulão;
  • Sebastião Pereira (Bidoro);
  • Silvino Odorico de Siqueira;
  • Venceslau Antônio de Oliveira (Lalau);
  • Violeta de Aquino.
     Agradecimento à Família Pina, que me emprestou as fotografias históricas e muitas informações importantes, assim como aos entrevistados.

Adriano Curado



quarta-feira, 20 de maio de 2009

Festa do Divino 7

Largo da Matriz destruído
Invasão do prédio do correio
Foto: Arquivo da Biblioteca Pyraí
Solar de Sansa Lopes na atualidade
Local onde os mouros encastelavam
Foto: Arquivo da Biblioteca Pyraí


As famosas Cavalhadas de Pirenópolis acontecem exatamente quando findam os festejos religiosos e começam os profanos. No Domingo do Divino ocorre o primeiro dia da encenação das Cavalhadas, com uma batalha campal entre doze cavaleiros cristãos (azuis) contra doze mouros (vermelhos); e depois de várias coreografias, saem os cavaleiros do campo e retornam com um pedido de trégua. No segundo dia, após novos embates, finalmente os mouros sucumbem e são batizados pelos cristão. Daí até o terceiro e último dia, serão apenas carreiras de confraternização e de brincadeiras, como a troca de rosas e a disputa de argolinhas.

Nos dias atuais, as Cavalhadas são encenadas num lugar especialmente construído para este fim e que ficou conhecido pelo horroroso nome de “cavalhódromo”, localizado num antigo campo de futebol, à entrada da cidade, na rua do Campo.

Até o ano de 1958, no entanto, as Cavalhadas eram encenadas no antigo largo que ficava detrás da Matriz e que hoje está tomado pela praça Central, pela casa paroquial e pelo prédio do correio. Os mouros encastelavam-se no lado poente, em frente da casa de José de Pina, que durante muitos anos foi seu rei. Tinham eles vestimentas bastante simples, sem muitos brilhos e adereços, à exceção do rei e do embaixador. Já os cristãos, encastelados do lado nascente, em frente ao solar do Sansa Lopes, trajavam-se de azul, com roupas semelhantes ao fardamento da polícia antiga, com colete e quepe.

Nesta época, as Cavalhadas eram assistidas somente pelos pirenopolinos e não aconteciam com regularidade, pois dependiam da autorização e do ânimo do festeiro. Muitos moradores mais antigos de Pirenópolis afirmam que aquelas Cavalhadas foram as melhores, quer pelo romantismo que as caracterizavam, quer pela inocência daqueles anos, quer pela ínfima quantidade de gente que participava dos festejos de Pentecostes.

Bibliografia:
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O Divino, o santo e a senhora. Rio de Janeiro: Funarte, 1978.
CARVALHO, Adelmo. Pirenópolis, coletânea 1727-2000, história, turismo e curiosidade. Goiânia: Kelps, 2000.
CURADO, Glória Grace. Pirenópolis, uma cidade para o turismo. Goiânia: Oriente, 1980.
FERREIRA COSTA, Lena Castelo Branco. Arraial e coronel. São Paulo: Cultrix, 1970.
JAYME, Jarbas. Esboço histórico de Pirenópolis. 2 v. Goiânia: Imprensa da UFG, 1971.
JAYME, José Sisenando. Pirenópolis (humorismo e folclore), 1983.
SILVA, Mônica Martins da. A festa do Divino – romanização, patrimônio e tradições em Pirenópolis (1890-1988).


by Adriano César Curado

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Festa do Divino 3



     Uma festa que merece especial destaque é a do tenente-coronel Francisco Lopes Guimarães (22.05.1836), que faleceu às vésperas do início dos festejos. Conta-nos Jarbas Jayme que “conhecendo estar próximo o seu desenlace, recomendou que não se suspendessem as diversões profanas já programadas. Satisfez-se sua última vontade, porém com a casa de sua residência (...) coberta de fumo (fumaça). Pedro Gonçalves Fagundes se encarregou de apresentar o espetáculo denominado 'Batalhão de Carlos Magno', pela primeira vez realizado em Meia Ponte”.

     Para quem não sabe, “Batalhão de Carlos Magno” era uma peça teatral encenada em algumas localidades goianas no século 19, caracterizada por diálogos e coreografias que representavam batalhas medievais, mais ou menos semelhantes às Cavalhadas, só que a pé.

     Aos poucos a festa tomava ares populares e ia se integrando na tradição local, para logo ser disputada entre os principais expoentes das famílias locais. Provavelmente para evitar atritos políticos, foi instituído o hábito de se realizar a escolha do novo imperador através de sorteio. O sorteado, sempre indivíduos do sexo masculino, que era considerado um privilegiado, já que “escolhido” diretamente pelo próprio Espírito Santo, ganhava o privilégio de ser a figura central da festa. Entre as vantagens que lhe eram concedidas estava o de ter assento de destaque dentro da igreja, o de receber tratamento respeitoso entre seus concidadãos e até de apartar brigas familiares.

     Já no final do século 19, a lista de candidatos a imperador era bastante concorrida e variava entre diversos grupos familiares, como as famílias Siqueira, Sá, Pina, Fleury Curado, Valle, Mendonça etc. Mas não importava quem fosse sorteado, pois toda a comunidade se unia em apoio ao novo imperador e logo todos se punham a trabalhar para o abrilhantamento das festividades de Pentecostes.

Bibliografia:
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O Divino, o santo e a senhora. Rio de Janeiro: Funarte, 1978.
JAYME, Jarbas. Esboço histórico de Pirenópolis. 2 v. Goiânia: Imprensa da UFG, 1971.
SIQUEIRA, Vera Lopes. Datas pirenopolinas. Anápolis: apostila. 1997.



Adriano César Curado