sexta-feira, 14 de junho de 2013

Rosa Vermelha



     Naquela noite sem lua ou estrelas meu sono foi interrompido bruscamente pelo chiado lamurioso de um carro de bois. A princípio achei que fosse sonho, mas logo percebi que a realidade invadia meu quarto trazida por sons estranhos. E foi então que me levantei, abri o janelão e vislumbrei na penumbra os contornos dos bois e do carro. Lá no fundo da cena, a Matriz cochilava, e um princípio de aurora rabiscava um borrão de cores nas reentrâncias dos morros.

     O largo estava vazio, apenas o carro de bois e os dois homens que o conduziam se aventuravam no vento gelado àquela hora.

     E quando passava aqui pela frente de casa, vi uma moça vestida de camisolão branco, cabelos desalinhados, olhos arregalados que brilhavam à meia luz. Era Iracema, a bela filha do Arlindo, uma coitada que endoidou por conta de amor e era levada para um manicômio.

     Sorri para ela por pura compaixão. E ela olhou para mim até que o carro desaparecesse e continuou a olhar depois que voltei para a cama. Sua imagem não saía da minha mente. Era cochilar um pouquinho e via a doida sentada na beira da cama. Aqueles cabelos arrepiados, aqueles olhos esbugalhados, calada, quieta. Foi com alívio que vi o sol penetrar pelas frestas do telhado e pude finalmente sair de casa.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Pirenópolis, a trilha da harmonia


     No dia 1º de fevereiro de 1998, a Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música (APLAM) promoveu seu 1º Concurso Literário, com o título: “O ECOTURISMO E PIRENÓPOLIS”. Por exigência do edital, apenas podiam concorrer alunos que estivessem, à época, cursando o 2º Grau (hoje ensino médio) nas escolas de Pirenópolis. Os prêmios para os vencedores foram os seguintes: ao 1º colocado R$600,00, ao 2º colocado R$300,00 e ao 3º colocado R$100,00.

     A vencedora do concurso foi Joelma Maria de Sousa, que à época (1998) cursava o 2º ano do curso Técnico para Magistério, com o título “Pirenópolis, a trilha da harmonia”. Por ser interessante e atualíssimo, segue abaixo seu trabalho, na íntegra:


     A porta de entrada para esta terra de mágica beleza, Parque dos Pireneus e várias cachoeiras, é o Município de Pirenópolis, que contém um dos pontos mais altos do Planalto Central, a Serra dos Pireneus, próximo ao paralelo 15.

     A cidade é conhecida pelos historiadores como berço da cultura goiana, pelos ambientalistas como berço das águas e pelos místicos como berço da Nova Era.

     Pirenópolis gera em seu útero uma incrível biodiversidade em espécimes vegetais, e suas várias nascentes de águas puras alimentam o Rio das Almas, que forma uma das principais bacias hidrográficas da América do Sul.

    A força desse rico patrimônio se revela em algumas das paisagens mais deslumbrantes do mundo, atraindo visitantes de todos os recantos.

     Nossa cidade oferece o atrativo ímpar de uma realidade multidimensional. É ao mesmo tempo um polo de ecoturismo, um centro histórico-cultural, uma oficina de arte e uma grande indústria de prazer. Pode-se praticar esportes radicais, mergulhar em águas puras, andar a cavalo, meditar no pico dos morros, participar de festas folclóricas ou simplesmente contemplar.

     Um sem-fim de trilhas levam a cachoeiras, corredeiras, piscinas naturais, vertentes, veredas, matas, mirantes e campos floridos. As paisagens moldam os morros com o encantador cerrado e seu horizonte sempre azul. Esse santuário natural constitui hoje um posto avançado para a prática do ecoturismo e do extrativismo, atividades que buscam promover o desenvolvimento sustentável da região. É assim que permanecem preservadas as águas puras das nascentes e as paisagens típicas do cerrado, com o poder curativo, ornamental e culinário de suas folhas, flores e frutos.

     Entre tantas trilhas que a natureza generosa da cidade oferece, uma vem sendo percorrida nos últimos anos por buscadores místicos que desejam uma convivência interior e exterior harmônica com a natureza. Afinal, um santuário ecológico é o melhor espaço para despertar o Ser Divino que habita em cada um de nós.

Joelma Maria de Sousa



quinta-feira, 6 de junho de 2013

A Matutina Meiapontese



     “A pesquisa, a busca dos jornais que formaram a coleção do legendário A Matutina Meiapontense, que circulou em Meia-Ponte, atual Pirenópolis, de 1830 a 1834, demorou 3 anos. Desde o primeiro dia, eu estava à frente da busca. Graças ao apoio do então vice-governador, professor José Luiz Bittencourt, pude levar avante o plano de reeditar esse histórico periódico. Várias cidades foram visitadas. Arquivos do Rio e São Paulo foram vasculhados. Ao final, sabendo que saíram, ao todo, 526 números, conclui que ainda faltavam 16 para completar a coleção. Esses números eu os encontrei em Corumbá de Goiás, em poder do Sr. Tito Clodoveu Curado. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida, pois eu já estava quase certo de que não completaria a coleção. Seu houve dificuldade, eu credito àqueles que não acreditavam no projeto A Matutina Meiapontese, negando-me a oportunidade de olhar nos seus arquivos.”

(TELES, José Mendonça. Memória Curta. Goiânia: Kelps, 2012, p. 30)

terça-feira, 4 de junho de 2013

Dois dedos de prosa



     Este chão endurecido pelo pisar humano, terra de árvores centenárias guarnecedoras das lendas perdidas nas matas milenares, é povoado por gentes de costumes antigos, de tradições diversificadas, de crenças enraizadas na miscigenação promíscua ajuntada história adentro. E não faltam superstições, descabidas ou não, nem cantorias afinadas em festejos já tradicionais, nem hábitos que se cultiva mas ninguém sabe de onde vem.

       Vou contar como foi isso, em dois dedos de prosa.

     Quem saboreia uma feijoada, atualmente prato principal de sofisticados restaurantes, regressa pelo paladar aos séculos da escravidão no Brasil e é transportado aos confins de penumbra enfumaçada das senzalas. Sobras de nacos de carnes “pouco nobres”, pedaços “inferiores” de animais, descartes que não caberiam na cozinha da casa-grande, tudo isso misturado com feijão preto, era dado ao servo negro, que se fartava com tamanha delícia e talvez zombasse interiormente de seus senhores.

     Há menos de um século, homens e mulheres andavam nus pelas imediações das cidades ainda pequenas, e a população assustada chamava-os de “tapuias”. Tinham fama de furtar crianças para criá-las nas tribos decadentes, matar e comer criações dos quintais, sequestrar as moçoilas que iam à fonte com seus potes de barro, escaramuçar o roceiro dos ranchos socados no mato.

     Um bocadinho mais afastado no tempo, entretanto, esses nativos eram tribos guerreiras numerosas e ferozes, diabos sanguinários com invisibilidade nas matas e grande capacidade de mobilização e organização. Mas se não fosse seu paiol de milho ou sua carne de caça defumada nas fogueiras das ocas e saqueados pelo impávido herói bandeirante, as comitivas dos desbravadores teriam se perdido nos desvãos do infortúnio.

     E então fez-se a luz sobre a pepita de ouro que rolou montanha abaixo! Desse dia em diante, nunca mais a paz rebuçou este chão com seu manto de estrelas. Homens e mulheres, de todas as classes, de muitas idades, de tantas culturas, acorreram para cá e mancharam este chão de lágrimas, sangue e suor. Templos gigantescos, casarões assombrosos, ruas de pedras, tudo isso brotou neste chão goiano.

     Todas as raças que por aqui vagavam acorreram, naquela ocasião, para o largo central do arraial, cada qual no afã de acudir seus filhos, de garantir a perpetuação da própria espécie, e houve uma guerra em que todos morreram. 

     Mas graça ao Yamandu indígena, ribombar estrondoso do trovão, aos Orixás da velha África e ao Deus cultuado nos templos de taipa, ressuscitaram numa só raça, miscigenação de costumes, lendas, tradições, superstições e crenças.

     A raça do povo goiano.

Adriano César Curado

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Aniversariante



     Hoje minha avó Maria Jayme de Siqueira Pina completa 90 anos de idade. Muito lúcida e com vasto conhecimento da história pirenopolina, é minha fonte de pesquisa para muitos assuntos referentes a este site. Ela é testemunha viva dos acontecimentos no século vinte em nossa cidade.

     Que Deus lhe dê muitos anos de saúde e paz, vovó.


domingo, 2 de junho de 2013

Essa árvore tem história




     "D. Conceição, primeira esposa de João Basílio, de volta de uma de suas viagens, trouxe para meu avô, Sebastião Basílio, uma semente que ela pegara em uma visita ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Ele a plantou e o resultado é esse encanto de árvore que vocês estão vendo. Quando ela alongou seus galhos para a rua e se cobriu de flores, as pessoas pediram a meu avô que lhes desse semente ou muda. Bem que ele tentou, mas nunca conseguiu reproduzir outra árvore dessa. Então, hoje, mais ou menos meio século depois, eu quero multiplicar a imagem dela, compartilhando com vocês a foto desta filha do jardim de D. João VI!Edna Ferreira