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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

De volta à infância

Na velha rua Nova onde passei a minha infância, a gente podia brincar de jogar bola porque transitava pouco carro e não se ouvia notícias de malfeitores. A meninada se reunia todo final de tarde, os homens no futebol, as mulheres no jogo de bete. Meus pais moravam no casarão do Mestre Propício e depois nos mudamos para a casa da esquina com a praça, que é de minha avó. A televisão preto e branco era sem graça, então as pessoas espalhavam cadeiras pelas calçadas e contavam as novidades do dia. As brincadeiras, causos e fofocas terminavam ali pelas oito horas porque a gente dormia cedo naquele tempo.

Hoje tudo está mudado. Os veículos expulsaram os meninos e as novelas tiraram as cadeiras das calçadas. As pessoas só se comunicam pelas redes sociais ou aplicativos de celular. Não há mais tempo para viver!

Mas eu ainda guardo na lembrança aqueles dias gostosos da minha infância e os trago de volta cada vez que relembro o passado.

Adriano Curado

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Pirenópolis: Patrimônio da Humanidade

     Quando o Centro Histórico da Cidade de Goiás recebeu o título de Patrimônio da Humanidade, em 2001, os pirenopolinos se alvoroçaram com a possibilidade de também alcançarem tal honraria. Isso aconteceu porque Meia Ponte e Vila Boa sempre foram cidades com intensa rivalidade política, tanto que disputaram quem seria a capital da Província de Goiás.

      O incêndio na igreja Matriz em 2002, no entanto, jogou água fria no sonho de Pirenópolis ser incluída na lista do Patrimônio Mundial da Humanidade e abalou profundamente a cidade. A classificação de um local como Patrimônio da Humanidade é feito pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Cultura, Ciência e Educação) e visa catalogar, para preservar, locais de excepcional importância cultural ou natural, como patrimônio comum a ser desfrutado por toda a humanidade.
Mercado S. José, na rua Direita, demolido em 2010
     Não é fácil alcançar o título de Patrimônio da Humanidade, pois os locais que desejam se candidatar devem se encaixar em rigorosos critérios de seleção. O Centro Histórico de Pirenópolis, se encaixaria no seguinte critério: “ser um exemplo de um tipo de edifício ou conjunto arquitetônico, tecnológico ou de paisagem, que ilustre significativos estágios da história humana”.

      E para que serve esse título? Entre as muitas vantagens, poderia citar: o status de ser Patrimônio da Humanidade e ter o nome da cidade em catálogos do mundo todo; fomentação de conservação do patrimônio material; e a possibilidade de obter dinheiro do World Heritage Fund para custear a manutenção dos prédios. Se você tem uma casa catalogada, dentro dum conjunto arquitetônico, como Patrimônio da Humanidade, imensas são as possibilidades de angariar fundos para sua reforma e conservação.

Casarão na rua Matutina, desabou em 2010

     Mas a cada dia que passa, Pirenópolis fica mais longe de conseguir esse título. Digo isso porque sua população ainda não compreendeu a essência da arquitetura dos casarões onde habita. É comum ouvir pessoas que dizem: “a casa está velha, tem que pôr no chão e fazer outra”. Então, do dia para a noite, derrubam o casarão, jogam fora adobe, assoalho de madeira e a estrutura de aroeira. Depois refazem tudo “igualzinho” ao que era antes, só que com tijolo furado, vigas de concreto, telhado de metal, cerâmicas modernas etc. E eu pergunto a você: é o mesmo casarão de antes?

      Para exemplificar o que digo, por ocasião de inscrever o Centro Histórico da Cidade de Goiás como Bem Cultural da Humanidade, a UNESCO sintetizou o seguinte parecer: “Goiás constitui um testemunho da ocupação e colonização do interior do Brasil nos séculos XVIII e XIX. Seu desenho urbano é característico das cidades mineras de desenvolvimento orgânico, adaptadas a seu entorno. Ainda que modesta, a arquitetura de seus edifícios públicos e privados apresentam uma grande harmonia, que é fruto, entre outros fatores, de um emprego coerente de materiais e técnicas locais". (UNESCO/BPI)

Casarão ao lado da Matriz, as pinturas (paredes e teto) de Tonico do Padre desapareceram
     Veja bem a importância de se preservar nosso casario tal qual foi edificado. A avaliação da UNESCO diz que a arquitetura dos edifícios, ainda que modesta, apresenta uma grande harmonia devido “ao emprego coerente de materiais e técnicas locais”. Que é isso? São as paredes de adobe, taipa-de-pilão ou pau-a-pique; são o baldrame de areira e o assoalho de tábuas; são as telhas coloniais; etc. Quem joga isso fora, ainda que levante uma casa com semelhança à demolida, não tem mais um edifício histórico, possui apenas uma réplica sem valor.

      Antes de pleitear ser Patrimônio da Humanidade, o pirenopolino tem que aceitar que sua cidade possui uma arquitetura simples e frágil, com as paredes sem prumo, o madeiramento tosco, o assoalho de tábuas irregulares. E são essas características que singularizam nosso rico acervo patrimonial. Quem quiser ver formosos palácios de mármore que vá passear em outro locais, aqui em Pirenópolis é tudo muito singelo, sem luxo, modesto.


Casarão em reforma na rua Direita: retiram o teto de madeira e puseram de metal
Adriano César Curado

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Carnaval em Pirenópolis 2010


 
     O carnaval na cidade histórica de Pirenópolis foi excelente. Está de parabéns a prefeitura municipal pela organização impecável e fartura de informações aos turistas que visitaram a cidade. Logo na chegada havia um ponto de informação, em formato de prédio colonial, e ali o turista recebia panfletos e mapas com explicações necessárias para melhor aproveitar as atrações locais. O trânsito foi acertadamente modificado para receber a grande quantidade de carros sem causar engarrafamentos, e ônibus fretados tiveram que estacionar fora do perímetro urbano, numa área reservada pela prefeitura.

     O maior mérito da prefeitura, no entanto, foi banir de vez o som automotivo da cidade. Até há bem pouco tempo, passear em Pirenópolis era um verdadeiro inferno acústico, já que meia dúzia de pessoas com potentíssimos amplificadores de som incomodavam a cidade toda e punham em risco as frágeis estruturas do casarões históricos. Agora foi diferente. A atual administração organizou um espaço fora do centro histórico, com tendas e bastante segurança, e ali quem gosta desse tipo de diversão pôde aproveitar os ensurdecedores decibéis até a manhã raiar.

     Na rua Direita, no entanto, prevaleceu o som das marchinhas antigas, com duas afinadas bandas se revezando no palco e levando a multidão ao delírio. Não houve nenhuma confusão digna de menção. Mas bonito mesmo foi ver a presença de famílias no local, desde senhoras de mais de oitenta anos, até crianças e alguns bebês, prova de que a segurança foi rigorosa com os excessos de alguns.

     A Polícia Militar posicionou-se estrategicamente para garantir que a folia transcorresse em paz, apesar do elevado consumo de álcool de alguns foliões exagerados. Mas o mérito do sucesso tem de ser dado também à prefeitura local. As ruas foram limpadas todas as manhãs por batalhões de garis, os guardas municipais permaneceram a madrugada toda acordados e organizando o trânsito, e não faltaram panfletos e mapas para melhor orientar os turistas.

     Contando com uma boa administração, como ocorre atualmente, Pirenópolis saberá proporcionar outras excelentes festas aos seus visitantes. A cidade tem grandes atrações turísticas, desde a natureza privilegia, até a história centenária. O que faltava era um poder público afinado com os anseios da cidade e um administrador com os olhos no futuro. Tenho certeza de que, agora, ninguém segura o sonho pirenopolino de ver a velha Meia Ponte se tornar patrimônio da humanidade.

Adriano César Curado