terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Tese revisita arquitetura goiana do século 19

PAULO CÉSAR NASCIMENTO


Na foto maior, a Igreja Bonfim; nas quatros imagens menores, casas da zona rural e urbana de Pirenópolis: levantamento minucioso. Em destaque: A arquiteta Adriana Mara Vaz de Oliveira: painel das transformações (Fotos: Divulgação / Antoninho Perri)Estudo realizado pela arquiteta Adriana Mara Vaz de Oliveira resgata período da história de Goiás e revela como viviam e moravam os habitantes rurais da cidade de Meia Ponte, hoje Pirenópolis, no século 19. Defendido como tese de doutorado em História no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, o trabalho “A Casa como Universo de Fronteira” aborda as principais características arquitetônicas da moradia rural goiana e se desdobra em um painel sobre as transformações sócio-culturais da época.

A semelhança com a obra seminal de Gilberto Freyre sobre a sociedade patriarcal brasileira a partir das relações e dos conflitos entre a casa-grande e a senzala, ou mesmo com os estudos sobre a casa paulista do professor Carlos Alberto Cerqueira Lemos, da Universidade de São Paulo (USP), não é mera coincidência (leia texto nesta página). Adriana, que é professora do curso de Arquitetura da Universidade Católica de Goiás, mirou-se nesses autores para compor não só a pesquisa do doutorado, como também a dissertação de mestrado que deu início às suas incursões pelo universo da moradia goiana.

“Por meio da moradia eu posso conhecer qualquer coisa, seja a história de alguém que viveu no passado ou a de quem vive no presente. A casa é um parâmetro de leitura não só de seu morador, mas da própria sociedade, e isso sempre me encantou”, justifica a autora.


Insularidade – Adriana revela que há uma complementaridade indiscutível entre a casa urbana e a casa rural goiana, pois as duas estão ligadas ao processo de estruturação da atividade agropecuária no estado, no século 19, e que permanece até hoje como a principal característica econômica da região.

As atividades agrícolas, observa ela, começam ainda no século 18, quando da ocupação urbana e da exploração aurífera pelos bandeirantes, e são influenciadas, sobretudo, pela característica insular de Goiás na época, distante até três meses por estrada dos principais centros abastecedores no litoral brasileiro.

“A dificuldade no recebimento de mercadorias levou pessoas a se organizarem para fornecer víveres àqueles que estavam em busca do ouro. E assim se formou, concomitantemente, uma estrutura urbana junto com uma estrutura de assentamento agropecuário ao redor das cidades”, constatou a pesquisadora.

Ela concentrou seu estudo nas manifestações arquitetônicas de Pirenópolis, uma cidade fundada por garimpeiros em 1727 (recebeu esse nome em 1890 por estar na Serra dos Pireneus), a 120 km de Goiânia, cujo patrimônio histórico foi tombado, e que desempenhou papel estratégico na ocupação do estado.

“Pirenópolis era um ponto comercial muito importante para Goiás. Todos os caminhos que vinham da Bahia, de Minas Gerais, São Paulo e Cuiabá passavam pela cidade”, explica a docente.


Espaço multifuncional – Segundo ela, um traço marcante das edificações interioranas, e que se acentua em Goiás, por causa de seu isolamento, é a sua multifuncionalidade. As casas rurais não eram apenas moradias, mas pequenas unidades produtivas, com anexos destinados à pecuária e suinocultura, ao cultivo de arroz e feijão, à torrefação de café, e à produção de farinha de milho e de mandioca, açúcar e rapadura, em que se processavam não só os alimentos para os moradores, mas os produtos agrícolas que eram comercializados na cidade.

A casa rural goiana, na concepção de Adriana, também se coloca na condição de fronteira por revelar a confluência de mundos diversos. Ela constata essa característica na arquitetura híbrida, composta por formas de construção importadas de outras regiões brasileiras, e manifestada, por exemplo, na edificação das paredes.

Vista de Pirenópolis: ponto estratégico“É um tipo de construção que vem de Minas”, observa. “Você levanta a estrutura de madeira nos cantos, coloca a cobertura e depois vem fazendo a parede de pau-a-pique.”

A tipologia das moradias permite ainda identificar o que Adriana chama de vernaculidade dos habitantes, ou seja, aquilo que é próprio ou peculiar no jeito de construir e de morar da região. Nas casas de Pirenópolis é comum a existência de guirlandas nas janelas e de bandeirolas de madeira nas portas, estilos arquitetônicos que não são encontrados em outras cidades goianas.


Diários reveladores – De acordo com Adriana, o estudo exigiu um extenso e minucioso trabalho de levantamento das fazendas, tarefa dificultada pela ausência de informações precisas sobre a localização dos imóveis. Mesmo assim, com a ajuda de moradores mais antigos e de informações obtidas em cartório e imobiliária, ela conseguiu elaborar o perfil de 33 propriedades rurais que julgou ainda possíveis de serem documentadas, pela representatividade e integridade, como a Fazenda Caiçara (leia texto nesta página).

Usou também relatos deixados por viajantes estrangeiros que passaram por Goiás no século 19, quase 200 inventários de pessoas que possuíam propriedades rurais e dois diários de mulheres que viveram na época. A documentação possibilitou a Adriana compor um painel riquíssimo de costumes e de hábitos dos moradores, revelando uma outra face do universo compreendido pela casa goiana: a de ser também um lugar de memória.

“Eu mostro como era o jeito característico do goiano ocupar a casa, de receber as visitas, de se movimentar pelos cômodos, de conviver com os membros da família, de trabalhar e até de realizar festas.”


Fontes de inspiração
Engenho na zona ruralEm Casa-Grande & Senzala, o escritor e sociólogo Gilberto Freyre imprimiu uma visão original da formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal a partir da moradia. “A casa-grande, completada pela senzala, representa todo um sistema econômico, social, político”, descreve o autor no prefácio do livro, lançado em 1933: “de produção (a monocultura latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro de boi, o bangüê, a rede, o cavalo); de religião (o catolicismo de família, com capelão subordinado ao pater familias, culto dos mortos, etc.); de vida sexual e de família (o patriarcalismo polígamo)”, entre outros.

“Desse patriarcalismo absorvente dos tempos coloniais a casa-grande do engenho Noruega, em Pernambuco, cheia de salas, quartos, corredores, duas cozinhas de convento, despensa, capela, puxadas, parece-me expressão sincera e completa”, menciona ainda Freyre, que em sua vasta produção novamente enfocaria a casa como elemento representativo da sociedade patriarcal no Brasil em Sobrados e Mucambos.

Nesta obra, de 1936, ele aborda a decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano a partir dos conflitos e conciliações entre o engenho e a praça, a casa e a rua, o pai e o filho, a mulher e o homem, o sobrado e o mucambo, e de outros aspectos das relações entre raça e classe.

Na fonte em que Adriana foi buscar inspiração para sua tese figura também o livro Casa Paulista: História das Moradias Anteriores ao Ecletismo Trazido pelo Café, de 1999. Nele, o arquiteto, artista plástico e professor do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Carlos Alberto Cerqueira Lemos, mostra como mudanças nas relações sociais foram alterando a organização das residências dos paulistas.

Preservando a história
Exemplo da arquitetura rural goiana preservada é a Fazenda Caiçara, em Pirenópolis. Com 80 alqueires, foi criadora de gado e produtora de cachaça, rapadura, açúcar, arroz e milho. Mantém ainda como atividades produtivas a pecuária, o cultivo de arroz, cana, milho e a produção de rapadura.

Construída no século 19, a fazenda desempenhou um papel significativo na região, e mantém até hoje uma venda de produtos diversos, para atender pequenos proprietários, empregados e agregados do lugar.

Localizada em um fundo de vale, a edificação é emoldurada por árvores frutíferas, tendo a sua frente dominada por pastos de capim. A casa principal está assentada em declive, acompanhando o caimento natural do terreno, o que gerou pequenos desníveis no seu interior. O paiol e o depósito alinham-se a esta edificação, enquanto que os demais anexos ocorrem dispersos na sua parte posterior.

O curral situa-se na frente e ao lado da edificação, possuindo divisões em pedra e em madeira. A casa tem volume retangular, de pouca altura, sem elementos de destaque, com aberturas de pequenas dimensões e de desenho convencional. O engenho e a rebaixa estão sob uma única cobertura, chamando a atenção por suas dimensões (331 metros quadrados).

Os demais anexos espalham-se pelo pomar. O monjolo existente está situado num pátio cercado por muros de pedras e tijolos de argila, aberto para um cômodo fechado. Havia um outro monjolo ao ar livre, no pomar, que foi desativado, assim como o moinho de milho, descreve Adriana.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Reforma do Fórum de Pirenópolis.

Cerimônia de inauguração da reforma do Fórum de Pirenópolis. Presentes também o presidente do Tribunal de Justiça e governador em exercício, Ney Teles, o juiz titular da Comarca, Sebastião Silva, e a promotora Nathália Botelho, padre Anevair e o prefeito Nivaldo Melo.






Esse fórum é muito bonito. Com a ruína do casarão do Praia Clube, ficou um lote criando mato em plena rua Direita. Foi a iniciativa do dr. Joaquim Henrique de Sá, à época presidente do Tribunal de Justiça, que possibilitou a construção desse prédio. Seu estilo arquitetônico está em harmonia com o Centro Histórico.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A fonte

Thaliana já havia sido advertida diversas vezes sobre o perigo de ir à fonte sozinha, ainda nos primeiros raios da aurora, e isso não só pela ronda de feras, mas também pela presença de homens estranhos. Mas o mal sempre acontece ao vizinho. 

Então naquele primeiro dia do ano, logo após a alvorada de pássaros e o despertar dos galos, lá foi ela novamente encher seu pote. Só que desta vez um peão da construtora da estrada federal a seguiu. Ia tão distraída a moça que não notou que o gatuno se esgueirava a poucos passos dela. 

Parou na fonte, provou da água e antes que pudesse mergulhar o pote, foi atacada por trás. Lutou ela uma luta valente e determinada, mas sucumbiu diante da força física do trabalhador braçal. E o que ele desejava, se dúvida havia, tornou-se claro quando tirou a própria roupa e depois começou a despi-la. A coitada estava exausta, trêmula, nervosa, não havia meios de escapar daquele homem forte e grande. E como uma presa dominada pelo predador, entregou-se à própria sorte.
Foi então que o improvável aconteceu.Outros trabalhadores da mesma obra ouviram seus gritos e acudiram para salvá-la do criminoso mal-intencionado. Thaliana ficou trêmula por muito tempo, sentada numa rocha e abraçada ao pote ainda vazio. Lembrava-se das histórias que sua mãe lhe contava quando criança, de que sua avó fora atacada naquela mesma fonte e que se casara com o assaltante porque era a tradição imposta às mulheres locais. E sua avó fora muito feliz com aquele homem que não era seu avô, pois sua mãe era filha do segundo casamento.

Ao retornar para a vila, Thaliana procurou relatos de outras mulheres que também passaram pelo mesmo incômodo e encontrou casos a perder a conta. É que o costume se instalara quando ali era uma mina de ouro, ainda no século XVIII, e se estendeu pelo tempo. Os homens escolhiam a donzela ideal para casar, assediavam-na, e se eram correspondidos, pediam ao pai dela permissão para noivado. Negada a petição, então a solução era recorrer à fonte.

Impressionada com o relato, Thaliana foi à cadeia pública visitar seu ofensor. Quis saber dele o porquê de atacá-la sem sequer conversar com seu pai. Ele ficou certo tempo sem compreender nada, mas quando notou na ingenuidade da moça, entrou no clima. Afirmou o esperto homem que se precipitara, que se tivesse nova oportunidade iria pessoalmente falar com o pai dela, e por aí vai.

Foi a contragosto que o comissário de polícia mandou soltar o preso. Mas colocou um cabo no seu encalço, até que ele fosse à casa de Thaliana. O pai dela, obviamente, negou qualquer consentimento ao relacionamento e ainda o expulsou dali com uma chibata. A moça passou a noite entre soluços e protestos de indignação. Não que gostasse daquele homem, já que sequer o conhecia e até o achava feio e estranho. Mas era uma questão de tradição, palavra sempre cultuada naquela casa.

Fato é que, no dia seguinte, bem cedo, lá foi Thaliana para a fonte com seu pote vazio. Só que o homem não apareceu. Nem nesse dia e nem nos demais. Esperto, já estava muito longe dali. E a moça ficou desconsolada com o pote vazio no colo. Achava que suas lágrimas encheriam aquele recipiente e esvaziariam seu coração despedaçado. Tantos anos de tradição estavam acabados justamente na vez dela.

Thaliana morreu solteira muitas décadas depois. Mas todos os dias ia à fonte encher o pote de água e lágrimas.

Adriano Curado

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Serafim, o bêbado

Coitado do Serafim, tão jovem e já estregue desse jeito ao vício do álcool. Ele é de família boa, de pais trabalhadores, mas saiu assim meio que torto, desembestado na vida. Seus amigos são outros bêbados que frequentam a taberna no final da rua e não têm compromisso com quase nada. Já tentaram demovê-lo da ociosidade alcoólica, mas todas as iniciativas foram em vão — igreja, trabalho remunerado, namorada, nada funcionou.

Hoje mesmo foi na boquinha da noite à taberna e por lá encontrou os tais companheiros de sina. O engraçado é que falam muito mas conversam pouco. E nem devem conversar demais, pois amanhã não se lembrarão bulhufas. Beberam o que coube e o quanto deu o dinheiro, despediram-se e saíram pela pequena cidade. Uns ficaram por debaixo de alguma ponte ou árvore, outros foram aliviar a bexiga nos jardins das casas e não faltaram aqueles que não conseguiram se levantar, dormiram na taberna mesmo.
Serafim não estava lá tão bêbado quanto a maioria. Ao pisar na calçada, suspirou fundo, olhou para o céu sem lua e marcou mentalmente o rumo de casa. Cambaleou de um lado ao outro mas tomou o cuidado de não derrubar sua preciosidade: uma garrafa de aguardente cheia até a tampa. Ainda faltava um tanto para o raiar do dia e poderia usufruir da bebida sem sócios sedentos.

A ruína do ser humano é mesmo a ganância. Em vez de seguir naturalmente pela rua, como fazia todos os dias, decidiu Serafim cortar caminho pelo mato. Sentiu medo de topar com algum companheiro da taberna e ser forçado a dividir seu precioso.

Noite sem lua, escuridão, tropeçou ele numa raiz e depois de catar cavaco por uns dois metros, abraçado forte com a garrafa, bateu de encontro ao tronco de uma árvore. Ao apalpar a barriga, percebeu que estava toda molhada, e então se desesperou, elevou aos mãos ao céu e pediu:

— Senhor Deus, permita que isto seja apenas sangue!

Adriano Curado

Dias melhores virão



E que dizer das labaredas dos tempos que assolaram as velhas Minas de Senhora do Rosário, levaram metade da tosca ponte e ainda baniram daqui aquela corja de garimpeiros? É quase igual à ventania de agora, furacão histórico que há de sepultar no esquecimento do silêncio das tumbas a insignificância de pessoas e fatos destes tempos insossos.

Mas deixa estar que a vida há de melhorar e este lugar ainda voltará a ser o berço da cultura goiana, num faiscar de glórias que ofuscará a mediocridade de muitos.

Adriano Curado



terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Através da lente fotográfica










Museu Nacional, o mais antigo do Brasil, fecha por falta de dinheiro

O Museu Nacional, mantido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e sediado na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio, está fechado para visitantes desde esta segunda-feira por tempo indeterminado, por falta de verba para pagar os serviços de limpeza e vigilância. Especializado em história natural, é o maior museu dessa área na América Latina e o mais antigo centro de ciência do País. Foi inaugurado em junho de 1818 - vai completar 197 anos daqui a seis meses, portanto.

O anúncio do fechamento foi feito por meio do site do museu, que atribuiu o fechamento a "problemas com os serviços de vigilância e limpeza". Em nota, a diretora do museu, Cláudia Rodrigues Carvalho, e o coordenador do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, Carlos Vainer, mencionam e criticam a contenção de verbas pelo governo federal.

"Naquela que deveria ser a 'Pátria Educadora', conforme promessa da Presidente Dilma Roussef em sua posse, a UFRJ não tem recebido os recursos que lhe cabem, inclusive para pagamento das empresas que prestam serviços de limpeza e portaria ao Museu Nacional. Impotente diante do que parece ser uma total insensibilidade da chamada 'política de austeridade' diante das necessidades básicas de nossa Universidade e, neste caso, do Museu Nacional, só nos resta esclarecer a comunidade universitária e a sociedade sobre a realidade que explica a suspensão das visitas, e vir a público para solicitar o apoio da sociedade e buscar sensibilizar as autoridades governamentais", afirma a nota.

Fonte site do ESTADÃO

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O artista solitário


Zé Inácio santeiro, um grande artesão e pintor, anda solitário pelas ruas da minha cidade, provavelmente na busca de inspiração artística.

Lagoa azul

Lagoa Azul, próximo a Pirenópolis, lugar de difícil acesso mas de uma beleza inigualável.

Fotos: Alencar Camargo Oliveira



Convênio Sesc Saúde Mulher


O prefeito Nivaldo Melo, acompanhado pelos secretários municipais, Hisham Hamida e Márcia Áurea, respectivamente saúde e educação, esteve na Pousada do Sesc. Na ocasião, o prefeito esteve com o diretor regional do Sesc Goiás, Giuglio Cyneiros, para assinatura do convênio Sesc Saúde Mulher. O projeto já está instalado na cidade, próximo à Unidade de Saúde Estrela Dalva, no Centro, e em funcionamento. São oferecidos exames de prevenção, ultrassonografia e mamografia, além de palestras educativas - saúde da mulher. Os atendimentos são feitos através de encaminhamento da rede municipal de saúde (postinhos).

Texto e fotos: site Prefeitura Municipal.